domingo, 24 de Fevereiro de 2008

eu que passeio neste mundo
sei que a escuridão se confunde muitas vezes com a luz
como os berços dos bebés que se perdem ou
os terços das velhas que não encontram Deus
ou cisnes ou patos

eu que sou um pato feio
tive que suportar o fardo de haver uma história sobre mim
que sobre mim não é
pois que ao ouvi-la durante o crepúsculo com a luz um pouco escura
avermelhada talvez e trágica
como o que pode ser o conteúdo
de um frasco de compota com o vidro
re-luz-ente nas bordas besuntado
que apetece lamber
esperei em mim o eclodir de um cisne exógamo
mas o meu ovo nunca fora trocado

e quem sabe não é isso que espero ainda
eu que nunca me bati por um pedaço
de terra sei o que é a desapropriação
ou, logicamente sei o que é
não ter propriedade nenhuma
sei o comunismo dos lagos poluídos
e a eutrofização dos lagos públicos

mas eu, que por alguém já me bati sei
a que sabe o gelo de uma mente que se desliga
da nossa elementarmente como a ficha
se desliga da tomada ou como
depois do falsete, o silêncio
súbito e inesperado.

Quando essa mente esteve à minha
ligada faltava-me a tristeza de não ter ninguém
mas agora sobra-me a tristeza de não ter nada

1 comentários:

catarina disse...

Descreves a alma encarando-a de frente. Sentes-te cega para o mundo mas demonstras precisamente o contrário com uma lucidez muito tua.

O meu favorito dos últimos.



"...faltava-me a tristeza de não ter ninguém
mas agora sobra-me a tristeza de não ter nada"