Neste momento já dorme e com ela eu sonho. Enquanto pestanejo surge-me o seu corpo prostrado no lençol que acalma a sua mão; os cabelos em desalinho sobre a testa, os lábios entreabertos como que a pedirem um beijo da atmosfera. Sinto, ao respirar, o calor que vem da sua nuca e o cheiro do pescoço alvo que apetece morder. As minhas mãos imploram pelo seu sono e o meu cérebro pela sua paz.
Distraio-me, mas logo volto a mim. A ela. Tudo nela me acalma, me apaixona, me enternece. Vejo agora o seu rosto que, ao ler este texto, centrifuga lentamente a vergonha, o orgulho e a saudade. Ah, e um genuíno sorriso. Mais tarde terei a confirmação de que assim foi. Sobretudo, a agoniante saudade. A derivada da elasticidade psicológica do tempo que parece variar hiperbolicamente entre extremos infinitos. Sobretudo, a ausência do corpo que ali dorme aconchegado numa cama que não é a minha.
Tudo nela me apaixona, me enternece - repito e tenho vontade de repetir vezes sem conta. Nem sempre foi assim, porém. Demorei algum tempo a amar este ser que se manteve incondicionalmente junto a mim e nunca se quis afastar nem deixar de me falar nem fazer-me sofrer. Na verdade, a prisão a outros seres antagónicos não me deixou aperceber de imediato que afinal tinha ao meu lado a mais bela pessoa do mundo.
Amanhã apetecia-me fazer compras para a nossa casa. Precisamos daqueles copos de pé alto para embalar o aroma frutado do vinho tinto. Do vinho trata ela. Também quero uma tira de espelhos ao longo de uma das paredes do nosso quarto, para nos vermos juntas, para quando nos virmos nuas e entrelaçadas termos a certeza do momento sublime que nos preenche. Gosto de a ver a desenhar no seu estirador, apraz-me a harmonia que cria entre a natureza e as formas geométricas. Tudo nela me deleita, as calças de dormir azuis muito coçadas de que não se consegue desfazer, a camisola interior de algodão branco entranhada no seu cheiro, o ar aparvalhado com um pensamento parvo que lhe passa pela cabeça e que imediatamente esquece.
Vou perturbá-la. Obrigo-a a largar o lápis quando a abraço por trás e encaixo o queixo no seu pescoço. A cadeira gira na minha direcção, peço-lhe beijos, peço-lhe tudo. Discutimos. Separamo-nos. Mas logo a seguir a saudade, o arrependimento, o esclarecimento e a paz.
Ronrona a música. Os nossos pés tocam-se. Da janela a planície deserta do Alentejo desaparece no horizonte, o céu muito azul. Levantamo-nos, vestimo-nos, vamos ver o entardecer no banco de baloiço do alpendre. Agradecemos com carícias termos passado mais um dia juntas. Fumamos calmamente do mesmo cigarro. Ao lado repousa o vinho nos copos de pé alto que comprarei.
.jpg)
5 comentários:
Ainda com um sorriso e lágrima que o tenta controlar só me sai uma estrofe cliché que se repete-se na minha cabeça...
Assim foi.
Assim o é.
Assim será.
Saudades.
*que se repete na minha cabeça
*que se repete na minha cabeça
Um texto lucido e sublime. É bom descobrir a tua escrita de uma forma menos alucinada ( mas que aprecio infinitamente).
É uma história de amor ...só!
Ora viva!
Não sei se sabe, mas este post é um excelente extravaso de emoções. De vez em quando transcende-se com o que sente: ainda bem.
Um abraço...
shakermaker
Enviar um comentário