quinta-feira, 29 de Março de 2007

retrospecção alienada


Os meus olhos morrem, querem fechar-se à força. Mas eu não deixo porque, pelo menos isto, tenho que escrever.
Já não sei viver sem ti [precisava tanto de tudo o que foste às vezes].
Naquelas estradas empoeiradas que percorríamos depois de termos saído da escola, quem sabe, tínhamos faltado às aulas. Tu tossias, no teu passo ligeiramente apressado e eu deixava-me ficar um pouco para trás só para observar a tua silhueta progressiva.
Num passo após o outro que, dia após dia, com toda esta distância e este tempo sem te ver eu fui esquecendo. A tua maravilhosa gargalhada por entre as consecutivas lágrimas dos teus olhos e eu martirizava-me por te ter ensinado a ser assim.
A beleza de uma varanda alta onde ao longe se ouçam as betoneiras a rugir em pleno dia. O telejornal, o prato de sopa na mesa da cozinha. O quarto com o teu cheiro, eu querer ser aquele quarto. Tantas coisas por nós inexploradas, e então, o que tem isso a ver com o que sou hoje?
Houve uma altura em que querias ser arquitecta e eu nunca soube o que queria ser. Construímos um relógio de sol num dia de chuva e eu soube sempre que havia de te perder e que havia de me perder.

Nunca mais niguém me vai econtrar, não há nunca a hora certa nem o tempo certo para mim, nem o lugar.

terça-feira, 27 de Março de 2007

vidas reais - Maria

Teve um caso com um carpinteiro que a obrigou a parir num curral o filho bastardo que, passados anos, morreu pregado na cruz num ritual satânico.

terça-feira, 20 de Março de 2007

ÚLTIMA HORA


STEVE VAI REGRESSA A PORTUGAL DEPOIS DE TER ESTADO CÁ PELA ÚLTIMA VEZ EM NOVEMBRO DE 2005.
DIAS NOVE E DEZ DE JULHO NO PORTO E EM LISBOA, RESPECTIVAMENTE.

ESTOU EXULTANTE!!!!!!!!!

segunda-feira, 19 de Março de 2007

momento musical

Oh yes I'm the great pretender (ooh ooh)
Pretending I'm doing well (ooh ooh)
My need is such I pretend too much
I'm lonely but no one can tell
Oh yes I'm the great pretender (ooh ooh)
Adrift in a world of my own (ooh ooh)
I play the game but to my real shame
You've left me to dream all alone
Too real is this feeling of make believe
Too real when I feel what my heart can't conceal
Ooh Ooh yes I'm the great pretender (ooh ooh)
Just laughing and gay like a clown (ooh ooh)
I seem to be what I'm not (you see)
I'm wearing my heart like a crown
Pretending that you're still around

Freddy Mercury - The Great Pretender

domingo, 18 de Março de 2007

boneca de neve

Espero-te sentada junto à parede
encolhida e só na penumbra empobrecida o gozo doloroso que isso me dá
a monotonia monocromática acolhe-me sem cansaço e nela me aconchego
por ser como eu imóvel escura triste
exaspera-me mais o barulho a memória dos sorrisos o trombetear das ambulâncias
a água a ferver na panela de alumínio, a rivalidade dos pratos
não ser o teu sorriso
não te acudir
não cozinhar para ti
não ser o teu alimento preferido enquanto
junto à outra parede desperta pelo brilho dos candeeiros um piano inquieto vai soando
nas teclas brancas amarelas perdem-se os dedos de alguém que não existe
porque não és tu mas quem me dera
existindo
perder-me nos compassos incertos da tua música
no âmago doce dos teus traços
na prioridade amargurada dos teus gestos
imiscuir-me numa melodia desafinada que cantasses eloquente
pela emoção que tivesses fruto do nada como ferida que tanto arde
de termos caído sem querer ao tropeçar numa das pedras do caminho
ser a cauda do teu piano que se estendesse em sonhos ao longo de um curso de água
onde os peixes balançassem nos anzóis
onde as iscas desfeitas fossem a doce recordação do pescador que nunca fora num navio
acoplado ao rodopio fútil dos búzios nas mãos de uma criança
o ruído fictício da espuma das ondas rebentando com fúria na areia e eu
queria tanto ser
a cal velha da parede onde te encostasses para que fragmentos de mim sussurrassem
na tua roupa
as nervuras das flores que cheirasses para colmatar os teus sentidos
mais do que realmente sou, todas as coisas subtis
ligadas às teclas as cordas que com os teus dedos afogueados martelasses
quem me dera que as tuas pupilas se dilatassem se eu tocasse
os dedos dos teus pés
como a neve a crescer nas montanhas o teu caucasiano olhar
como arrepio enleado de um cubo de gelo a roçar a pele pálida
queria tanto derreter-me no teu dorso protuberante
quem me dera ser
a boneca de neve onde o teu cachecol aconchegasses
como se a frieza tivesse solução
como se eu não tivesse vida para além de ti
compreendo que te exaspere o meu silêncio que as minhas palavras sejam só
ecos do que já foi dito
compreendo que não gostes de quem sou na ilusão
alegre e triste de quem poderia ser
mas ouvir-me requer mais do que ouvidos
eu fui erva plantada em outro planeta
podias descobrir-me sem me culpar por ser distante
ausente como o prazer de ver as horas no teu relógio segurando o teu pulso
frágil na iminência de quebrar, as lágrimas o pranto introspectivo
tudo isso é meu, em vez de ti.
Na ausência de um guarda-chuva eu poderia sacudir-te as gotículas de água das pestanas
e ser o teu abrigo póstumo rudimentar
enquanto te beijasse os olhos no meio do mundo globalizado
e associasse a ti a fragrância revitalizante da terra húmida
e regasse de consolo a minha mente enlameada perversa
rodar-te-ia com destreza se te encontrasse num bordel
comprar-te-ia tudo o que não pudesses dar
humilhar-te-ia como se pisasse um verme da cor do barro por moldar
erguer-te-ia só para te ver cair
e ainda assim te percebo estrondosamente
porque a frieza não tem solução eu sou o problema
que gostavas tanto de poder gostar resolver
gostavas que o teu cachecol me servisse e aquecesse
ainda assim quem me dera ser
a tua boneca de neve.

quinta-feira, 15 de Março de 2007

mojito

Juntas não temos liberdade
e um dia quando a tivéssemos
iriamos lembrar-nos das energias que em círculo fechámos
como se os nossos membros se dissolvessem uns nos outros e soltassem
pequenos fragmentos tempestades de areia desertos pálidos
oásis por percorrer nas tuas mãos apoteóticas uma cruz religião irrecusável
uma tontura um sonho por todo o tempo que dure vai ser sempre pouco e um
pouco imaturo violento
como a flor que desponta para engolir o insecto carnívora
como um fátuo zumbido as pequenas asas sumidas a tremer
num gemido o regozijo de ver nos mares os barcos a vapor desirmanados
contra o céu os fumos reflectidos no ondear cristalino das ondas
as redes de pesca as pequenas barbatanas da cartilaginosa matrinchã exótica
como a minha pele acondicionada na tua nos nossos olhos rasgados o mistério
da nossa origem eu não sei de onde vem a tua mão que me agarra
nem sei como posso ter força para te prender agrilhoar-te aos meus pés de repente
e nunca nunca poderes partir.
Sou francamente insuportável
penso demais
sinto demais
peso demais mas
das minhas mãos podias desenhar corações nos cadernos com os cantos dobrados das folhas
podias ouvir-me a calcá-las no outonal desenrolar da felicidade
os nossos beijos com o lamento o infortúnio
dos rouxinóis sem ninho sobre os ramos despidos
das minhas mãos podias despir-te
tirar fragilmente de mim tudo o que quisesses
mesmo que não tivesse nada para te dar senão
a esbatida melancolia dos meus ciúmes e o meu desejo como se
nunca nunca mais pudesse esquecer-te como se
a cada som dos violinos de arcos cordas que vibram sem pavor
fosses sempre tão intensamente chorada
a cada cigarro fumado no ar mediterrânico das madrugadas de Maio um sorriso teu
na raiva de nunca o ter tido pleno e único nas tardes lentas de Agosto
nas manhãs ternas da chuva inclinada a embater nos vidros embaciados da janela
uma cama que pudesse ser só nossa
gostava de dormir abraçada aos teus cheiros com a face encostada
aos teus cabelos negros que me puxassem para dentro dos teus sonhos
e um sorriso teu e abertos os teus braços
pudesse a minha alma caber lá dentro
deves saber a hortelã macerada
deves saber a cânhamo nos pulmões envelhecidos
deves saber a querer dizer que te amo
e não poder
e não poder sequer ver-te por me apetecer tanto beijar-te
languidamente, porque na realidade não te amo
mas sinto-te tanto
como se te amasse

terça-feira, 13 de Março de 2007

as pessoas são colhidas como alfaces

Questiono-me muitas vezes, infantilmente, se pertenço a algum lugar. Não consigo parar muito tempo no mesmo sítio, começo a olhar à volta e cansa-me a familiaridade das coisas, os objectos por demais conhecidos, os ângulos por demais experimentados. Como tal, por mais que o meu corpo se materialize aqui e ali, acho que a minha mente nunca vai conseguir pertencer a lugar nenhum. Nem em minha casa, nem no meu quarto, nem na praia, nem no campo
ou, como já desejei tanto
vou comprar um guia de sobrevivência e refugiar-me nos Himalaias
mas para quê? Como seria possível, apesar da minha natureza meditativa, abandonar o bulício da cidade, os peões no passeio aguardando o sinal verde do semáforo, o ruído constante do arranque dos carros, os diletantes cafés e os cigarros, as noites profusas e decadentes, os estados alienados de mim mesma?
Vejo-me obrigada, por motivos de natureza genealógica e geográfica, a andar muitas vezes de comboio, distribuindo-me desigualmente entre duas cidades mesmo sabendo que, no fundo, não sou de nenhuma. Hoje, enquanto conversava com uma amiga minha ela disse que todos os fins de semana lhe queimavam os collants com cigarros. E eu pensei
talvez seja o destino, os comboios em que eu ando também chegam sempre atrasados.
Certo dia, perto de Fátima, o comboio fez uma travagem brusca e parou repentinamente. Já era de noite há umas horas e o tempo estava chuvoso lá fora. Os passageiros entreolharam-se e tentaram espreitar pela janela, mas não se via nada. No banco ao lado do meu viajava um velhote com a esposa, que sorriu para mim. Desviei os olhos dos seus olhos tortos e continuei a escrever e a queixar-me às pessoas com quem falava via msn, impertinentemente, que o comboio tinha parado e nunca mais reiniciava a sua fatídica marcha. Exaspera-me tanto viajar de comboio. Todos os percursos parecem intermináveis, os olhares dissimulados das pessoas umas para as outras cansam-me. Irrita-me a paragem nas sucessivas estações antes que possa chegar ao meu destino, enerva-me as pessoas a enganarem-se na carruagem e nos lugares que lhes são destinados. Chateia-me o bigode esmifrado dos revisores e o ar condicionado que nunca está na temperatura certa.
Foi uma longa espera, perto de Fátima. O comboio permaneceu no mesmo sítio durante uma hora e meia. A minha carruagem estava quase vazia e eu podia ouvir o velhote a dizer à mulher que era maluca, quando a entrada do revisor desviou a sua atenção
o que é que se passa para estarmos há tanto tempo parados?
e o revisor respondeu
o comboio colheu uma pessoa
e morreu
As pessoas são colhidas como alfaces. Mas as alfaces não deixam as pessoas à espera.
Puta que a pariu. Puta que pariu as pessoas. Puta que pariu os comboios.

segunda-feira, 12 de Março de 2007

a génese da minhoca

O presente texto vem tratar da questão pertinente: porquê uma minhoca?
E eu, embora não tenha por hábito falar de coisas que não sei, vou responder. Certo dia, estava eu na sala de aula e, a propósito da natureza humana, iniciou-se uma acesa discussão sobre Deus. As duas filas da frente, quase em uníssono, gritaram
— Deus condiciona toda a nossa vida!
e eu pensei que Deus deve ser mesmo mau, porque uma era preta e tinha o nariz mais largo do que a boca e a boca mais grossa do que os dedos, outra tinha os dentes encavalitados e todas as refeições da semana compartimentalizadas no aparelho ortodentário, mas quando ouvi esta afirmação
— Se aparecesse um pedófilo no meu consultório dava-lhe um par de estalos!
percebi que estas pessoas eram edificadas à imagem e semelhança do seu próprio deus.
Não levou muito tempo, porém, até que novos intervenientes surgissem, alegando a maior ou menor participação divina na essência do ser humano, mas quando uma menina muito bonita, de Cascais, disse que
— O homem é igual à minhoca!
eu vi-me obrigada a reduzir a pó todas as minhas convicções espirituais e estou solenemente convencida que sou uma minhoca.
Todavia, este sério e inteligente debate não foi o único motivo que me levou a reconsiderar os axiomas já estabelecidos acerca de mim mesma. Confesso até que duvidei, por breves momentos, que o homem fosse igual à minhoca.
(Céus, como pude eu duvidar dessa afirmação?)
Mas reflecti muito sobre mim e as minhocas, e chguei à conclusão que temos muitas coisas em comum e, como tal, eu só posso ser uma minhoca. Não me refiro apenas à minha mentalidade tacanha, obscura e underground e ao facto de ser uma palerma; tenho também em atenção o meu presente metafórico — estou enterrada — e o meu futuro literal — vou para debaixo da terra. O facto de as minhocas terem um sistema digestivo completo também é um dado relevante, porque eu adoro comer e não sei como seria se, enfim, não tivesse mecanismos organismicamente capazes de digerir tudo aquilo que como. A epiderme das minhocas é coberta por uma fina cutícula de quinina e produz bastante muco, que as torna viscosas e facilita o arrastamento. As minhocas são vermes, arrastam-se; eu também me arrasto. O muco tem ainda outra função, que é a de proteger a pele quando em contacto com substâncias tóxicas e garante a humidade indispensável para trocas de gases respiratórios no corpo. Ora, eu também tenho as minhas defesas contra agentes nocivos e tenho o meu próprio muco que, embora não sirva para trocar gases, serve para outras coisas.

A título de curiosidade: as minhocas, na cópula, produzem bastante muco.

Se calhar somos todos minhocas.