Espero-te sentada junto à parede
encolhida e só na penumbra empobrecida o gozo doloroso que isso me dá
a monotonia monocromática acolhe-me sem cansaço e nela me aconchego
por ser como eu imóvel escura triste
exaspera-me mais o barulho a memória dos sorrisos o trombetear das ambulâncias
a água a ferver na panela de alumínio, a rivalidade dos pratos
não ser o teu sorriso
não te acudir
não cozinhar para ti
não ser o teu alimento preferido enquanto
junto à outra parede desperta pelo brilho dos candeeiros um piano inquieto vai soando
nas teclas brancas amarelas perdem-se os dedos de alguém que não existe
porque não és tu mas quem me dera
existindo
perder-me nos compassos incertos da tua música
no âmago doce dos teus traços
na prioridade amargurada dos teus gestos
imiscuir-me numa melodia desafinada que cantasses eloquente
pela emoção que tivesses fruto do nada como ferida que tanto arde
de termos caído sem querer ao tropeçar numa das pedras do caminho
ser a cauda do teu piano que se estendesse em sonhos ao longo de um curso de água
onde os peixes balançassem nos anzóis
onde as iscas desfeitas fossem a doce recordação do pescador que nunca fora num navio
acoplado ao rodopio fútil dos búzios nas mãos de uma criança
o ruído fictício da espuma das ondas rebentando com fúria na areia e eu
queria tanto ser
a cal velha da parede onde te encostasses para que fragmentos de mim sussurrassem
na tua roupa
as nervuras das flores que cheirasses para colmatar os teus sentidos
mais do que realmente sou, todas as coisas subtis
ligadas às teclas as cordas que com os teus dedos afogueados martelasses
quem me dera que as tuas pupilas se dilatassem se eu tocasse
os dedos dos teus pés
como a neve a crescer nas montanhas o teu caucasiano olhar
como arrepio enleado de um cubo de gelo a roçar a pele pálida
queria tanto derreter-me no teu dorso protuberante
quem me dera ser
a boneca de neve onde o teu cachecol aconchegasses
como se a frieza tivesse solução
como se eu não tivesse vida para além de ti
compreendo que te exaspere o meu silêncio que as minhas palavras sejam só
ecos do que já foi dito
compreendo que não gostes de quem sou na ilusão
alegre e triste de quem poderia ser
mas ouvir-me requer mais do que ouvidos
eu fui erva plantada em outro planeta
podias descobrir-me sem me culpar por ser distante
ausente como o prazer de ver as horas no teu relógio segurando o teu pulso
frágil na iminência de quebrar, as lágrimas o pranto introspectivo
tudo isso é meu, em vez de ti.
Na ausência de um guarda-chuva eu poderia sacudir-te as gotículas de água das pestanas
e ser o teu abrigo póstumo rudimentar
enquanto te beijasse os olhos no meio do mundo globalizado
e associasse a ti a fragrância revitalizante da terra húmida
e regasse de consolo a minha mente enlameada perversa
rodar-te-ia com destreza se te encontrasse num bordel
comprar-te-ia tudo o que não pudesses dar
humilhar-te-ia como se pisasse um verme da cor do barro por moldar
erguer-te-ia só para te ver cair
e ainda assim te percebo estrondosamente
porque a frieza não tem solução eu sou o problema
que gostavas tanto de poder gostar resolver
gostavas que o teu cachecol me servisse e aquecesse
ainda assim quem me dera ser
a tua boneca de neve.