quarta-feira, 29 de Agosto de 2007

cuidado com as avozinhas

a minha vida é triste como a de um general
com reforma por invalidez e para além disso
impotente
de que servem as insígnias se nunca pôde lutar
pela sua pátria a arma deposta no passado queima-lhe
as costas com as lembranças da queda
que fora sobreviver

sonhai portanto o mais que pudeis
infiéis
vocês só têm uma dissimulada
deambulante titica de galinha
velha e eriçada
que pela preguiça a digerir
acaba por defecar grandes
bocados

a invalidez é um iogurte
entornado quando a sede mais apertava
de repente os pedaços de morango
espalhados pela pedra das escadas
a rodear, como faz o mar com uma ilha
uma beata de cigarro
e o seu ventre arqueado era um grande cais

depois do caldo entornado o que mais faltava era
ficar paraplégico é péssimo
só poder olhar de cima ursinhos de peluche
e de lado as pernas com varizes das avozinhas
como se fossem pequenos ovos alienígenas
do qual brotavam desfiguradas
lesmas saltitantes, os seus
pequenos nadas

a falta de circulação
pode afectar o coração mas nem assim
batia a bota da tropa
a disciplina é tanta que eles falam
como se já tivessem tido traumas
de guerra eles falam outra língua
que ninguém sabe classificar é
muito perturbante parecem
deuses a deliberar
delírios

à febre ninguém escapa mas nunca houve
uma enfermeira gira que
o atendesse
eram sempre anafadas e com verrugas
sobre o lábio e assim no hospital
nunca teve a cura
para o seu outro problema

viver não faz sentido se
passados muitos anos
sentados na mesma cadeira
e ele estava profundamente arrependido
por ter nascido

1 comentários:

Catarina disse...

"Escapou-te" isto?

Lindissimo.