sábado, 5 de Setembro de 2009
produto descontinuado ou versão menos um
só posso contactar inteligibilidade calcando os sulcos
do meu próprio córtex cerebral
civilizadamente decadente
em o que toca sentir
torno-me a abelha moribunda após espigar-se na presa muitas vezes errada
a agudez primeiro
e logo o amortecimento segundo
as memórias dos voos altos
e por aí fora, sinapses ou espectros?
o aroma açucarado e colorido das flores
os recantos polinizados
os gineceus cortejados zumbidos e despidos
copulando numa evidência corpuscular
a colmeia procede impávida enquanto isso
o meu mel já adoçou todos os chás todas as gripes
parece eterna a minha não existência
na selva silenciosa
no betão refinado
onde sinto só o meu início e o meu fim
a saudade está de mim ausente
embora eu possa invocá-la
viúva alegre de mim mesma
terça-feira, 7 de Julho de 2009
após calipo de morango
nem preciso de retornar para o sofrimento
cirando entre as minhas fronteiras
estou sempre nas primeiras fileiras
e no hospital de campanha
ao mesmo tempo
lanço a granada com que impludo
os meus pedaços interiores reagrupam-se noutro mundo (noutra dimensão)
hello kitty é a bandeira cujos cantos esvoaçam
sobre a minha tumba de pau imaginado
os penichenses louvam-no e comentam
que é pena alguém tão doce ter finado
e que por ser ao ar livre pode-se fumar
os que choram sem ranho contam-se pelos dedos de uma pata
pelas penas de um cisne os que pensam ainda estar vivos
enquanto o meu móbil de vida permanece indiferente
à bandeira ao tempo ao cheiro
já não tenho pátria nem dinheiro
antes ou depois do agora
sem querer pôr entre os quadrúpedes o atrelado
é tudo tão piroso e aziático
será que fui plantada na terra
para trazer alegria e divertimento
como uma simples tulipa
ou será que sou um gesso metafísico viciado em carbonato de di-hidróxido de alumínio e sódio
Docelina Marafona
segunda-feira, 8 de Junho de 2009
acontecimemento
pois só as pedras ficam mais macias
com a passagem do tempo
até que se tornam grãos de areia
em alpinística diáspora
pelos elementos
não sei se assisto impavidamente
ao deambular sarcástico do tempo
ou se sou eu que por ele ironicamente está passando
neste impreciso momento
não sei se continuo
ou acabo
ou continuo acabando
a imaterialidade das almas
deve dissolver-se alarvemente
na tríade subjectiva do tempo
ou na dimensão da sua própria hipótese
o meu destino paralelamente será
ou a ser viria somente
uma ruga de carbono
pulsações
na tua ausência percorro o caminho
que imagino ir dar ao teu encontro
concedo-me o desconto da animalidade subjacente
são vielas escuras que se sobrepõem
como duas moscas acasalam
que me aventuro penetrando
as cuecas grandes penduradas nos estendais
cujos testemunhos orgânicos sobrevivem às lavagens
são risíveis insalubres
como as minhas fantasias
os meus pré-sentimentos
mísseis no casulo aprisionados.
iii/ii
nesta guerra fria mas quente
um rio surge que não posso atravessar
pois não significas tanto assim
ii
dá-me, querida às vezes
o privilégio da tua ausência
quando eu quiser
não venhas para aqui urdir vontades
chacinar o meu ouvido impaciente
nas horas em que simplesmente não penso
em te baixar as calças
segunda-feira, 4 de Maio de 2009
recto retro resto
e energizante colho as flores eufóricas
pelas marmóreas colunas dóricas
no caule procuro pela nascente
avistando uma nuvem indecente
recordo-me das raízes melódicas
e penso: que naturezas metódicas
criaram esta seiva incandescente
eu formulando questões intrigantes
sei não ser nada nada original
os muros que cercam o meu quintal
têm a curiosidade dos infantes
mas eu já sei o órgão genital
já sei que nada será como antes
quarta-feira, 22 de Abril de 2009
com certeza
pois os que vivem preferem matar
é que p'la liberdade todos morrem
revoltos nas certezas de fuligem
como as dúvidas que não os afligem
no meio de tantas guerras que decorrem
matando imortalmente a par e par
eu não sei por que (ou porquê) lutar
eu vejo ao longe o mar das convicções
e nele nadam ódios e paixões
e ninguém se apercebe do perigo
a imparcialidade irá comigo
e as verdades às quais enfim não ligo
existem aos molhos nas sensações
sábado, 28 de Março de 2009
fisting
passa-se um mau bocado
a cada passo em falso
paga-se caro o percalço
anda-se descalço
desacordado
com um formulário do centro de emprego por preencher
os relógios pesam mais do que o tempo passa
mas na casa de penhores são um cisco pecuniário
até que damos por nós
filhos pais e avós
e a nossa vida é uma trança eriçada
que urge cortar
como é que ninguém nos faz rir
ou chorar
como é que a nossa vida é um negócio
tão difícil de suportar
e tem um balanço tão negativo
na caixa registadora um tostão de sonhos
implodido e desfigurado e pobre
pede na esplanada o cobre
para a carcaça
o seu cão coça a ferida na pelada flácida
que lhe fez uma carraça
a pulga assalta uma criança
o maneta toca
o coxo dança
as pessoas passam e fazem pouco
Docelina Marafona
segunda-feira, 9 de Março de 2009
mitocondríaca
é a dor que passando ficou
alojando-se com à vontade cá nas minhas mitocôndrias
de inverdade a mito são dois passos
por coincidência a mesma distância
da fé à cultura do ludíbrio
sou mitocondríaca
sinto-me uma lenda triste
inventada do que não existe
um berlinde de vidro
imóvel ou partido
um sótão que nunca foi varrido
nesta cidade do pó
partículas dispersas como as bolas de cristal
só a mim não ressuscitam
para mim foste
sempre serás
uma devassa
mesmo depois de morta a traça
a malha esburacada procede
qual piedade
quando estou farta é de me auto-dar-esmola
seja eu cega surda muda
e assexuada
se não és uma devassa
segunda-feira, 2 de Fevereiro de 2009
um dois três
quando eu nasci chovia
mas aí eu ainda não sabia o que era
precipitação
ainda assim nove meses após o coito precipitei-me
devia ter-me precipitado logo no primeiro dia
olá mundo
já quis dizer adeus
já tive ideais
mas nunca tive um irmão
nestes dias raivosos
o ciclo da chuva parece ter só uma etapa
chover
realça as imperfeições do mundo
e obriga à crueldade dos camionistas
que encharcam as crianças com os seus pneus gigantes
rodando brutamente nas encostas sovadas
à beira das estradas nacionais
e eu
escorrego na calçada da felicidade
sou arrastada pelas águas
a minha rata renasce no esgoto
e corre atrás das outras ratas
II
ouço alguém levantado
que fará a esta hora matutina
será que trai alguém neste preciso momento
será que tem uma razão de ser viável
será que lhe mordem os genitais
não, nada disto
mas tem alface nos dentes
e ninguém lhe diz nada
todos dormem enquanto o pobre
é uma lagartixa ao contrário
III
as sombras não são quentes
mas as luzes ofuscam
sábado, 24 de Janeiro de 2009
a ventania da memória invade-me mesmo assim
não pedi para me lembrar mas
o que fiz é inconciliável sem mim
os ramos das árvores estão em itálico
vergam-se perante a minha sucedânea verticalidade
pois este vento só me afecta depois de ter soprado
só consigo dormir muito depois de ter acordado
se eu soubesse não tinha travestido a infância
para hoje nua não ser uma criança alérgica
que detesta a humanidade nos seus esboços ridículos
estou praticamente enraivecida
o vento uiva dolorosamente
apetece-me matar
quinta-feira, 15 de Janeiro de 2009
amarga sobremesa
a infelicidade
o nunca estar satisfeito
o levar estas duas premissas
tão a peito
ao ponto de o coração
ficar desfeito
tiramissu
um pouco de vinho e pão
em dias de chuva
abençoados sejam os aquecedores eléctricos
e as mantas coloridas
isto adia-nos a vida
como se fosse indispensável a vida ser adiada
tiramissu
a ligeireza com que o presente
se torna um fardo tão pesado
perpetuamente protelado
a conjugação dos verbos
que é o equivalente linguístico
aos maus modos do tempo
tiramissu
a bandidez colateral da matéria
quinta-feira, 25 de Dezembro de 2008
alma mater, single bells
é o bacalhau da consoada
sempre tristemente passada
a vida não é como nos filmes
o amor não acontece
o agora comum não existe e
as almas gémeas são quanto muito heterozigóticas
mas este natal foi o melhor de todos
pois dormitou meu âmbito a meu lado
enquanto eu via:
o amor acontece na tv
ho ho human whore
time chooses me
I wish past was future
as my present is not
a good present
if I turn the other side
I won’t see it anymore
the obvious is often so
invisible
like latin
in a portuguese word
I raise my sword
to being nothing
and anything
is my lord
it’s too expensive but
it seems I can afford
to let life slip away
like the bloody
un-fructified eggs
of women
Anonymous Abortion
terça-feira, 23 de Dezembro de 2008
re-laxante
um contentor todos estes fieis vacilos
as minhas pernas de criança
contendendo por se erguer
as minhas mãos de velha que inspiram pena e cuidados
os meus sentidos admoestados pelo medo
a minha voz sem jeito para contar histórias
a minha fixação oral
o meu mijo dentro da minha bexiga túrgida
a preguiça infecciosa de visitar a minha sanita
tudo meu,
meu, meu
que tudo até aparenta girar à minha volta
como se a minha energia fosse um pouco menos insignificante
e a minha insipidez menos protuberante
contudo eu garanto que
tudo está em mim
albergo entre tanto a minha dor
da qual a dor que não me pertence
se alimenta
como se eu fosse um intestino gigante
com uma lombriga colossal
Elizabeth London
segunda-feira, 22 de Dezembro de 2008
I'm a fuckin' gay pig
o brilho da espada não ofusca o que destrói
o trabalho da guerra é bonito nas gravuras
a morte é um fenómeno físico
que todos os dias me acontece um pouco
já não luto por ela
estou de luto é por mim
nada me inspira ou me revolta
as pessoas causam-me simplesmente náuseas violentas
morram todos os que não amo, please
animais!
nem sei por que é este um insulto
invejo os animais pois são tão premeditados
enquanto a humanidade é uma gafe
não é justo apagar-se quem dá à luz
e é por isto que não quero descendência
ninguém permanece alguém
quando perde a sua mãe
a obra-prima universal da natureza
Elizabeth London
desejos para este natal
para que quando eu saia o ar possa ser puro
se defecarem sangue tenham esperança
e não digam a ninguém a encarnação das vossas fezes
destruam-se mutuamente devido a uma opinião diferente
contagiem-se com doenças, seus macacos
comam e bebam muito na consoada e tenham um enfarte
Elizabeth London
quinta-feira, 20 de Novembro de 2008
bola de berlin
nasceu em mim
não fui feita
para ser assim
um silvo crepuscular
na beleza do céu incomparável
com moedas de ouro a brilhar
não me fizeram para ser uma máquina
menos ainda a melhor de todas
não me fizeram para eu ver
o meu reflexo na bandeja de prata
a qual me previamente escravisaura
sou uma preguiçosa nem escrava
de mim própria quero ser
isto é a valer:
prefiro o pouco hermético estrondo
da ameaça terrorista
o ajuntamento de vísceras
de um suicida-bombista
que julga saber
quem não merece
viver
eu não acho que alguém
mereça
muito menos os ricos
Docelina Marafona
segunda-feira, 17 de Novembro de 2008
vistos através da minha janela alugada:
este mundo pertence aos outros
e se eu aqui estou é porque estou
redundantemente fora de mim
e de fora cá para dentro
acaba mais um dia diafórico
não fiz nada por mim nem por ninguém
não tive o prazer singelo de sair de casa
nem sequer oscilei selvaticamente no meu colchão
e diacronicamente
quando apareço é porque quero partir
e isto todos os dias
nada faço ou aconteço
quando faço alguma coisa penso
é um começo
que acaba logo
e é como se não tivesse existido
e hoje
a noite desce que é
como quem diz
o sol
mordo o anzol, entristeço e penso
será errado não estar sempre contente
domingo, 26 de Outubro de 2008
autobiografia mais ou menos sumária
ou afortunadíssima
não sei se a vida em si não será
um infortúnio no qual
ingenuamente aconteci
e desde logo pertenci a uma família
à minha mãe que cantava
e ao meu pai que me dava de beber nas fontes
com a sua mão robusta
após uma infância feliz
por vezes a vida dos outros
parece-me mais inútil do que a minha
embora eu seja infinitamente mais inútil
do que eles
pertenço ali e não estou lá
estou dramaticamente comigo
só comigo onde
vendo o sol através do tracejado de uma persiana
tenho frio nos pés
terça-feira, 21 de Outubro de 2008
adiante o nada
para não ver o que faço
quando me chateiam
torço o braço do maldito
para que dê o dito pelo não dito
é a única forma que tenho
de ditar a minha vida
na hora da despedida
sou mais sensível
sou um charco onde as decadentes gotas
me provocam uma líquida flacidez
chove cada vez menos
e ainda bem
estou cada vez mais estiada
aplico o creme hidratante amedrontada
com o encarquilhamento que aguarda por mim
adiante
só não posso despedir-me de mim mesma
e torcer o meu próprio braço
não serviria de nada
as restantes coisas mudam
nada resta afinal
domingo, 14 de Setembro de 2008
operacionalidade
exaspera a ausência da tua voz
sopra
constantemente na minha memória mas
nos meus ouvidos não
também sinto falta de me
ter afogado nos teus braços
ou frios ou quentes, sei lá
qual seria a tua inclinação se
me beijasses muito tendo
em conta que és já um pouco corcunda
então talvez eu possa inclinar-me
e tu reclinares-te e nós possamos
declinar sobre o chão porco da cozinha
ninguém pode saber e agora talvez
nem mesmo eu tenha o tédio
de conhecer melhor alguém
como tu
mas eu gosto que outra explicação
pode haver para a maneira adorável
como trocas as palavras
és enjoativamente superficial
mas adorei-te assim que te vi
ouso receber-te de pernas abertas
mas temo o teu aspecto quando despires
a farda manchada de operário fabril
oxalá eu não vomite
oxalá não me enojes ao ponto de eu
esticar o pernil
Elizabeth London
papel higiénico
penso nos meus amigos
em vez de colocar os dedos na garganta
admiravelmente resulta pois em mim
a náusea de ter amigos é bem maior do que a de não os ter
a minha úlcera é mais fiel do que qualquer um deles
a amizade é um sentimento equivalente a uma morte por afogamento
num balde de plástico cheio de escarros
sem requinte, sem contentamento
sem vantagem, em suma, sem sentimento
na amizade só a pronúncia é enjoativa
parâmetros restantes são fatais
amigos são animais mais perigosos que chacais
que se aproveitam de nós
não adianta chorar sobre a espectoração retornada
Elizabeth London
imalização
com uma outra cor que eu nunca vi
ao ponto de não a poder imaginar
imagino-me agora ali
a dançar o contraponto de um chuveiro
dentro de um alguidar amarelo
imagino que imagino tudo
sem na verdade imaginar o que imagino imaginar
eu posso imaginar que imagino o mundo
imagino-me então
a pedir perdão
por tudo o que fiz e
por tudo o que não acabei de fazer
perdão por nada e por tudo
o que eu podia ser
o paraíso é nada mais do que
quando anoitece
a luz se aborrece de fluir
o sol se cansa de sorrir
e nós na escuridão cada vez mais iluminados por dentro
mágicos do momento
técnicos de som e imagem
imagino-me
a não ter medo do depois
e a temer as consequências
mas só posso imaginar que me imagino assim
porque na verdade estou presa à idealização
sem ter todavia
qualquer ideal
nem sequer a harmonia porque
paz e amor não dão
qualquer emoção
que eu só poderia imaginar imaginar
intercidades e alfa pendular
se não se estiver ansioso pela chegada
repara-se mais nas enseadas de milho
e menos na falta de planeamento urbanístico
é raro encontrar alguém lá fora
porém uma certa abstracção é necessária para os de dentro
que cheiram mal e são metediços e insuportáveis
estar aqui é uma viagem a decorrer
gostava que hoje não acabasse nunca
é de facto bom não estar em lugar nenhum
quando não se tem lugar nenhum para estar
ou nenhum lugar onde se queira ficar
tudo parece menos penoso em movimento cá dentro
não há brisas que enregelescem
nem queimaduras solares
e no entanto vê-se o sol gretar as folhas
e o vento cogitá-las
as coisas passam com rapidez suficiente
para que não desejemos apreciá-las mais tempo
nada fica em nós por muito tempo
à excepção do próprio tempo
a poeira exibe-se secretamente na rotunda deserta
eu vejo-a sem a respirar
enquanto tenho consciência de mim
Elizabeth London
sábado, 13 de Setembro de 2008
ver-me verme
sinto-me pelo menos
apetece-me grunhir e dilacerar o meu próprio rosto
não é fealdade exacerbada nem desgosto
é raiva de mim
falta-me o vocabulário que necessito para gostar de mim mesma
mas também, não sou daqui
sou da indulgência
as minhas garras ainda não me desfiguraram
porque prefiro manter-me camuflada
quieta e calada
não preciso de me mover
sou mais feliz deitada
as catraias que ficaram aprisionadas nas vestimentas
da última década têm mais auto-confiança do que eu
tenho medo dessa gente que é feliz com as suas
sobrancelhas farfalhudas
as suas caras de piaçaba
sinto-me inferior
com esta falta de vontade de agradar a todos
já que não o consigo fazer naturalmente
sinto-me vários patamares abaixo
daqueles que fazem parte de revistas literárias
onde nunca serei bem vinda
no anglicanismo depressivo do tempo
sou tão antiga que não consigo
começar de novo
Elizabeth London
domingo, 31 de Agosto de 2008
alternativa
bem em todo o lado
é como um cavalo alado
que cai por terra quando
cansado
e que se sabe que não existe
ou existe?
É um atrelado
que se vai lentamente
desprendendo
é premente no sentimento
onde aos poucos nasce
um conceito
até que outro amor volte a nascer
é uma falta de respeito para quem o sente ficar desfeito
mas talvez apenas se ausente, é este nada
ou então a fénix as estações os movimentos da Terra
o reflexo do tempo
sábado, 30 de Agosto de 2008
o Viajante
certamente aguarda a não-geografia
de outra viagem
mas ninguém quer ser viajante
ao ponto de viajar onde só um Viajante
viajaria
também ninguém
quer ficar nele porque ele
parte sempre
enquanto passa ondula o vento
o rio, incessantemente
para além de ser belo tonturas
lhe provoca na indistinguível diferença
entre o rio presente e os outros todos
quando descansa os líquenes sentam-se
entre ele e o cimento e
chora o Viajante perante a natural
ambivalência na plena
consciência do seu eu
não simbiótico
domingo, 10 de Agosto de 2008
varanda
sozinha porque a esta hora já ninguém
quer estar acordado
para mal do meu pecado
despertar
ou talvez seja a realidade a adormecer em mim
a falhar-me como um amigo
a abafar-me como o amor
enquanto sonho em circunscrever a segunda circular
em busca da estação de serviço mais próxima
se os céus pudessem filmar a minha beleza
eu não seria nada mais do que
uma nuvem em comum
só teríamos o facto de nos
podermos desmanchar em lágrimas
ou um desenho triste
porém ainda tremo
não sou a bela imaterial
sou excretora mas também hormonal
tenho um coração em riste
tenho um suplemento
e só com ele cá dentro
consigo amar a vida
quinta-feira, 17 de Abril de 2008
o manto vermelho
que é azulado mas transparente
para a água parecer menos suja e mais
paradisíaca
ainda assim boiava eu naquela amálgama de cabelos longos mas
perdidos naquele
emaranhado de peles mortas que entrelaçam os meus
tentáculos! Checheche a água a oscilar com o arrombar repentino
de uma janela a corrente de ar o arrepio de frio
a água do chuveiro já a fumegar
com a cortina toda encolhida a um canto já se
salpicara todos os ténues azulejos em redor
eis que a porta se abre e fecha num
movimento apressado
ao ser dado o segundo passo um pé
em falso desliza pelo azulejo molhado
e do impacto de um crânio na aresta da parede
irromperam repuxos de sangue
um cotovelo derrubou o balde
que me albergava e aquela água com seres vivos
choca e parada sufocou umas narinas e uns ouvidos
durante o desmaio também alguns dos meus tentáculos ficaram envolvidos
com este molho lânguido do sangue. O chão era quase surreal
(Dona) Esfregona
domingo, 30 de Março de 2008
in dilema
As sombras na parede como
um dilúvio incandescente imprevisível
lento
como uma borbulha
na minha cabeça chiam os travões
de um veículo pesado
que ferá ele assim infiltrado
numas alucinações
de súbito um pequeno silêncio
e logo a seguir
o ronronar de um carro
mas este já percorreu a estrada verdadeira
aquela depois da minha janela
e que bela vista é
repleta todo o dia de pessoas a pé
e viaturas buzinantes
por outro lado é maçador
porque não me deixam dormir
ao meu lado a aflição em forma de repouso
o delírio culpado de
uma não-devoção passageira
de um relapso imperativo das
relações
a intuição extradita exclui
que quem eu fui
retornará para tomar
o meu lugar e afugentar as sombras e os barulhos
mas sem o que eu sou
ao meu lado a aflição em forma de
aflição
sexta-feira, 28 de Março de 2008
nestas prateleiras
será a Cher ou
uma loira qualquer ao volante de um
descapotável com dois grossos tubos
de escape
será uma estrela ou um pedaço
de plástico cuja inflamabilidade
apetece testar
e para todos os bonecos da minha infância
estou farta de falar
as línguas de fora ao avistar uma amora
- adeus!
para todas as figuras ali pausadas como
estátuas corroídas uma
demolição!
A todas as enfermeiras
submissão perante as tareias
que bom é cuidar bem de nós próprios
mas quando a doença vem e a ferida alcança
se percebe que as faculdades
uma vez tão úteis como as braceletes
nos relógios
são infrutíferas perante nós
que fazemos nós para além de
desconstruir tudo
somos cidadãos do mundo
ou de uma rara colecção de jarras
somos sequer cidadãos?
Ai! Que fazemos quando pensamos que criamos
e até mesmo o que nos criou a nós
que não sabemos e inventamos
que se deve estar a rir neste momento
porque, quem sabe, eu penso
que crio agora qualquer coisa
que fazemos pois aqui
ou ali
uns com estacas no coração
outros ostentando varinhas de condão
nessas montras enfadonhas das lojas
nessas monstras sub-humanas
e mesmo em frente
jarras como nós.
quinta-feira, 20 de Março de 2008
S N/O S
se sei quem pareço ser
se sei
quem me dera desaparecer
mais que uma fuga, um eclipse
pois, tal como a lua minto
e aquilo que sinto
nem sempre é o que pareço sentir
quem me dera fugir
num carro selvagem
como dizer poeticamente que
o meu sistema nervoso simpático reage
às ameaças como um cobarde e que tal
não é muito simpático da sua parte
como ameaçá-lo
para que fuja
e eu fique coisa
inanimada ainda assim não muito diferente
de mim mesma
quem me dera sair sã e salva
da minha circunvalação labiríntica
mais que uma prisão, uma solitária.
domingo, 24 de Fevereiro de 2008
sei que a escuridão se confunde muitas vezes com a luz
como os berços dos bebés que se perdem ou
os terços das velhas que não encontram Deus
ou cisnes ou patos
eu que sou um pato feio
tive que suportar o fardo de haver uma história sobre mim
que sobre mim não é
pois que ao ouvi-la durante o crepúsculo com a luz um pouco escura
avermelhada talvez e trágica
como o que pode ser o conteúdo
de um frasco de compota com o vidro
re-luz-ente nas bordas besuntado
que apetece lamber
esperei em mim o eclodir de um cisne exógamo
mas o meu ovo nunca fora trocado
e quem sabe não é isso que espero ainda
eu que nunca me bati por um pedaço
de terra sei o que é a desapropriação
ou, logicamente sei o que é
não ter propriedade nenhuma
sei o comunismo dos lagos poluídos
e a eutrofização dos lagos públicos
mas eu, que por alguém já me bati sei
a que sabe o gelo de uma mente que se desliga
da nossa elementarmente como a ficha
se desliga da tomada ou como
depois do falsete, o silêncio
súbito e inesperado.
Quando essa mente esteve à minha
ligada faltava-me a tristeza de não ter ninguém
mas agora sobra-me a tristeza de não ter nada
sábado, 2 de Fevereiro de 2008
quinta-feira, 31 de Janeiro de 2008
improviso na pessoa que amo (nós)
Neste momento já dorme e com ela eu sonho. Enquanto pestanejo surge-me o seu corpo prostrado no lençol que acalma a sua mão; os cabelos em desalinho sobre a testa, os lábios entreabertos como que a pedirem um beijo da atmosfera. Sinto, ao respirar, o calor que vem da sua nuca e o cheiro do pescoço alvo que apetece morder. As minhas mãos imploram pelo seu sono e o meu cérebro pela sua paz.
Distraio-me, mas logo volto a mim. A ela. Tudo nela me acalma, me apaixona, me enternece. Vejo agora o seu rosto que, ao ler este texto, centrifuga lentamente a vergonha, o orgulho e a saudade. Ah, e um genuíno sorriso. Mais tarde terei a confirmação de que assim foi. Sobretudo, a agoniante saudade. A derivada da elasticidade psicológica do tempo que parece variar hiperbolicamente entre extremos infinitos. Sobretudo, a ausência do corpo que ali dorme aconchegado numa cama que não é a minha.
Tudo nela me apaixona, me enternece - repito e tenho vontade de repetir vezes sem conta. Nem sempre foi assim, porém. Demorei algum tempo a amar este ser que se manteve incondicionalmente junto a mim e nunca se quis afastar nem deixar de me falar nem fazer-me sofrer. Na verdade, a prisão a outros seres antagónicos não me deixou aperceber de imediato que afinal tinha ao meu lado a mais bela pessoa do mundo.
Amanhã apetecia-me fazer compras para a nossa casa. Precisamos daqueles copos de pé alto para embalar o aroma frutado do vinho tinto. Do vinho trata ela. Também quero uma tira de espelhos ao longo de uma das paredes do nosso quarto, para nos vermos juntas, para quando nos virmos nuas e entrelaçadas termos a certeza do momento sublime que nos preenche. Gosto de a ver a desenhar no seu estirador, apraz-me a harmonia que cria entre a natureza e as formas geométricas. Tudo nela me deleita, as calças de dormir azuis muito coçadas de que não se consegue desfazer, a camisola interior de algodão branco entranhada no seu cheiro, o ar aparvalhado com um pensamento parvo que lhe passa pela cabeça e que imediatamente esquece.
Vou perturbá-la. Obrigo-a a largar o lápis quando a abraço por trás e encaixo o queixo no seu pescoço. A cadeira gira na minha direcção, peço-lhe beijos, peço-lhe tudo. Discutimos. Separamo-nos. Mas logo a seguir a saudade, o arrependimento, o esclarecimento e a paz.
Ronrona a música. Os nossos pés tocam-se. Da janela a planície deserta do Alentejo desaparece no horizonte, o céu muito azul. Levantamo-nos, vestimo-nos, vamos ver o entardecer no banco de baloiço do alpendre. Agradecemos com carícias termos passado mais um dia juntas. Fumamos calmamente do mesmo cigarro. Ao lado repousa o vinho nos copos de pé alto que comprarei.
quinta-feira, 24 de Janeiro de 2008
improviso em mulher com pneus
Por mais que se atrasasse sempre para todos os compromissos e ligasse mil vezes ao performer da sessão de acumpunctura (peço desculpa pelo termo performer mas desconheço o nome atribuído ao estatuto profissional desta actividade e não quero correr o risco de ofender ninguém chamando-lhe médico, e ao mesmo tempo o termo curandeiro não me parece igualmente boa ideia) pedindo-lhe sempre imensas desculpas e um
- espere lá mais um bocadinho, estou aqui a passar naquela ponte que tem uns pilares em cimento e vêem-se carros a passar por baixo
quando na verdade ainda estava a quase duas horas desse local que descrevia.
Passadas as duas horas, já na ponte que anteriormente descrevera, não sabia por qual saída optar, então ligava novamente ao pobre performer que por esta hora já devia estar a espetar agulhas nele próprio, inquirindo-o acerca da escolha rodoviária acertada.
O facto de confundir a esquerda com a direita e vice-versa levara a que, mesmo com as indicações topográficas do Mr. Needles, ela seguisse o caminho errado. Só se apercebeu que se tinha enganado no caminho quando surgiu na berma uma placa a dizer "Ajuda" com uma cruz vermelha por cima, o que interpretou como se fosse um sinal de Deus.
Voltava rapidamente para trás quando o telemóvel de terceira geração com post-its repletos de números de telefone colados à capa começou a tocar uma melodia dos DaWeasel e a coisa começou a cheirar mesmo mal. Ficou por breves momentos paralisada, não conseguindo atender a chamada, parecia-lhe uma eternidade. Ao mesmo tempo que estava cheia de curiosidade sobre a identidade misteriosa da pessoa que lhe ligava - já que não sabia utilizar a agenda, tinha entrado num portentoso e magnífico campo magnético de concentração metafísica. Nele se sentia aprisionada, envolvidíssima com a sua própria ausência de pensamento. Na verdade, ela não tinha por hábito pensar, até que certo dia leu no Destak uma frase que a chocou, enterneceu e mudou para sempre a sua vida
- penso, logo existo
a partir daí obrigava-se a pensar que pensava e por isso existia. De hora em hora, quando apitava o indiscreto alarme do relógio digital Casio que roubara no sótão do filho mais velho, ela pensava. Pensava que pensava. Em paralelo, quando ouvia o pii irritante do alarme do relógio olhava para ele com um ar orgulhoso. Para além de ter passado toda a sua vida a fingir que sabia ver as horas nos relógios analógicos
[cena em pleno verão. Está cansada, pára por um momento para interpelar um sujeito desconhecido, pergunta-lhe as horas enquanto com a mão esquerda sacode o suor da testa, o homem olha para o relógio dela e diz-lhe as horas]
Para além disso fora uma prenda para o primogénito que adquirira com a primeira semanada que o marido lhe dava, após onze anos de casamento.
terça-feira, 8 de Janeiro de 2008
auto retráctil
como a mesma o foi outrora
gostava de ser um adeus repentino
no rugir de uma demora
ou então gostava de ser um alguidar
porque gosto do nome
e porque contenho em mim
tantos caroços mas
nada demais
sexta-feira, 4 de Janeiro de 2008
e se eu não fosse aquilo que sou seria hoje o que era e teria sido o que fui depois?
não existe raiva em mim à excepção da que tenho de mim mesma
e mesmo essa apanhou moléstia no meio da erva
às vezes penso se na vez de uma minhoca não serei uma lesma
ou um pensamento triste que se pode beijar
segunda-feira, 5 de Novembro de 2007
taraxacum
apocalipse dos dentes de leão
ainda se curava com chá a hipertensão
tudo era como uma camisola de lã pura num dia frio ou
como um barco no rio
hoje é sintética a pele e dentro dos barcos navegam
pedófilos
desfizemos os muros de adobes com as nossas mãos
quando os muros ainda eram
frágeis rústicos como os dedos calejados
de um velho
e por detrás das amoras verdes o nosso sopro despia
o dente de leão de cada semente
amor de homem ou amargosa flor
ou a esperança que o vento traz
para dentro de casa quando deixamos abertas
as janelas de madeira de nogueira mas
o amor tem cara de mulher
e o corpo
de leão
eu fecho as janelas, para mim
parece não haver redenção possível ou
esperança, porque eu não creio em
deus que abre dez janelas quando fecha
uma porta talvez porque quando pela porta entra
a desgraça saia
pela janela a vergonha e eu
fecho-me e
eu prefiro a controvérsia das canalizações
as cabeças calvas dos quartilhos
e as cabeças calvas dos mestres e a monotonia de
não esperar nada e
deixar tudo murchar.
O telefone toca mas
o meu pé frio marca o ritmo de outra música qualquer
sexualmente extravagante porque
ainda é alguém a dizer-me que
outra pessoa morreu e
quem espera por sapatos de defunto morre descalço
sexta-feira, 2 de Novembro de 2007
favas contadas
cansei-me de não ver o teu rosto
cansei-me dos bilhetes de avião para Montreal
só para procurar jóias roubadas
as pistas tornaram-se mais enfadonhas do que lições de moral
favas contadas
caíam
no alguidar amarelo sobre a mesa de granito
pop pop
verdes as vagens e os malogrados dedos de seiva manchados
as unhas pintavam-se com os minerais da terra escavada
calos da enxada, artroses
maquinalmente pop pop pop
um ritmo imparável, que máquina
para depois ingerirmos as favas guisadas
as calças com manchas de lixívia
rotas entre as pernas do uso exacerbado
húmidas nos joelhos
embora um ser como tu nunca devesse estar ajoelhado
a boa índole que me tentaste incutir de pouco serviu
talvez eu tenha jogado durante
muito pouco tempo
um garfo numa mão e na outra um pedaço de broa
o teu gesto doente ao deglutir a salada
o teu coração desperdiçado
domingo, 21 de Outubro de 2007
Carolina
terça-feira, 25 de Setembro de 2007
do Lat. amore
inclinação da alma e do coração;
objecto da nossa afeição;
paixão;
afecto;
inclinação exclusiva;
quarta-feira, 29 de Agosto de 2007
cuidado com as avozinhas
com reforma por invalidez e para além disso
impotente
de que servem as insígnias se nunca pôde lutar
pela sua pátria a arma deposta no passado queima-lhe
as costas com as lembranças da queda
que fora sobreviver
sonhai portanto o mais que pudeis
infiéis
vocês só têm uma dissimulada
deambulante titica de galinha
velha e eriçada
que pela preguiça a digerir
acaba por defecar grandes
bocados
a invalidez é um iogurte
entornado quando a sede mais apertava
de repente os pedaços de morango
espalhados pela pedra das escadas
a rodear, como faz o mar com uma ilha
uma beata de cigarro
e o seu ventre arqueado era um grande cais
depois do caldo entornado o que mais faltava era
ficar paraplégico é péssimo
só poder olhar de cima ursinhos de peluche
e de lado as pernas com varizes das avozinhas
como se fossem pequenos ovos alienígenas
do qual brotavam desfiguradas
lesmas saltitantes, os seus
pequenos nadas
a falta de circulação
pode afectar o coração mas nem assim
batia a bota da tropa
a disciplina é tanta que eles falam
como se já tivessem tido traumas
de guerra eles falam outra língua
que ninguém sabe classificar é
muito perturbante parecem
deuses a deliberar
delírios
à febre ninguém escapa mas nunca houve
uma enfermeira gira que
o atendesse
eram sempre anafadas e com verrugas
sobre o lábio e assim no hospital
nunca teve a cura
para o seu outro problema
viver não faz sentido se
passados muitos anos
sentados na mesma cadeira
e ele estava profundamente arrependido
por ter nascido
sexta-feira, 24 de Agosto de 2007
regressão literária sob a forma de poema
numa estrela cadente
quero ver o céu rumar como uma jangada à deriva sobre os murmúrios
das ondas para que a noite seja mais longa
os meus dias são feitos de tédio a minha carne iluminada
tem mais trevas do que sangue ainda que
a minha vida prossiga exangue
durante a madrugada
eu quero a emoção incauta de uma chuva de estrelas
para me perder a olhar esquecer as arestas da varanda que
sei de cor há muito tempo
vacilo em cada passo
acabo no lugar de onde tentei partir
sem que passe uma só estrela ou o rasto desfiado de um foguete
para me levar daqui onde antes temia fadas
enfrento para além do fado
os meus pequenos nadas
é triste a tristeza ser em vão
se eu pudesse renunciar a razão
abrir mão do sol pela manhã que atiça o desespero
atirar-me-ia da janela, se fosse mais alta
mas cansa-me pensar o quanto desejo fugir
e que se fugisse não teria para onde ir
por mais que eu sonhe
com nenhum lugar
sexta-feira, 3 de Agosto de 2007
sobre o amor
excerto do meu livro
sexta-feira, 13 de Julho de 2007
sinopse
quarta-feira, 11 de Julho de 2007
domingo, 8 de Julho de 2007
rescaldo 777
- Sete anos, sete meses e sete dias passaram desde o virar do milénio. Na História ficará para sempre marcado o episódio decorrido a onze de Setembro, enquanto o dentista se esquecia dos seus utensílios dentro da minha boca escancarada, abismado com o relato que se ouvia no rádio. Cansa-me. Cansa-me discutir o petróleo das coisas.
- Nestes momentos em que já nada mais interessa, pergunto-me. Na minha história o que é que ficou? Que pedaços de mim ficarão nas histórias das outras pessoas? Que memórias, que sonhos tive eu que outros de mim terão? Que ideia tenho eu de mim própria? Quem sou e quem gostaria de ser?
- Retenho o estigma da consternação constante. A minha história de tanto ser tudo reduz-se a nada. Sou apenas um grão de areia que se passeia por entre os vértices de uma ampulheta. Obedeço à força da gravidade. Sou só mais um retalho. E no entanto gostava de poder ser quem sou, mas para poder ser quem sou teria de estar onde não estou a fazer o que não faço e a sentir o que não sinto. Quem sou é quem eu gostaria de ser. Não sou de facto a pessoa que sou.
- Se não sou quem sou nem quem quero ser, quem sou eu?
- idealizar
- v. tr.,
- dar carácter ideal a;
- imaginar;
- criar na mente;
- fantasiar;
- planear.
e na prática: disforia, angústia, incerteza.
sábado, 30 de Junho de 2007
[pensamento supérfluo sobre]o receio
quarta-feira, 27 de Junho de 2007
closing time
Leonard Cohen - Closing time
And it's partner found, it's partner lost
and it's hell to pay when the fiddler stops
It's CLOSING TIME
I swear it happened just like this:
a sigh, a cry, a hungry kiss
It's CLOSING TIME
The Gates of Love they budged an inch
I can't say much has happened since
But CLOSING TIME
I loved you when our love was blessed
I love you now there's nothing left
But CLOSING TIME
I miss you since the place got wrecked
By the winds of change and the weeds of sex.
carta ao Steve Vai
Tentei convencer-me, durante muito tempo, que não tinha ídolos, apenas referências. Creio que um ídolo implique mais um fanatismo exacerbado do que a admiração extrema que tenho por ti. Mas hoje acordei e pensei que, ao longo da minha vida, houve pessoas que idolatrei quando eram meras referências; sendo assim, por que não podes tu ser um ídolo para mim?
És um verdadeiro manancial de exemplos a seguir, todos eles invejáveis. Começando no teu virtuosismo, abre-se um longo caminho que se estende pelo trabalho árduo, pela excentricidade, pelo sentido de humor, pela sabedoria e pela humildade, que culmina em toda a tua individualidade e na unicidade de tudo o que fazes. Culmina salvo seja, porque creio que tens muito pela frente.
És a pessoa mais rica de quem certamente já ouvi falar. Estou a ter um momento de sobriedade, onde ponho de parte, por momentos, os meus adorados escritores malucos. Gostava de ter um bocadinho de todas as coisas que tens, mas que fossem minhas. Gostava de ser menos um filtro e mais um destilador, como tu. Cada nota que dás é pura e por conseguinte certa e única e tua.
Estou prestes a ver-te pela segunda vez ao vivo e sei de antemão que vou sair da Aula Magna sem palavras, como aconteceu da primeira vez que te vi. Fascina-me tanto o sentimento que imprimes a uma só nota, a maneira como se nota que cantas dentro de ti tudo aquilo que tocas, as tuas mãos grandes como se tivesses nascido para que qualquer guitarra pudesse na perfeição encaixar nos teus braços, a alegria que transmites, a alegria com que partilhas a tua arte, a complexidade dos teus compassos, o todo que és. Sublime.
Não te conheço, mas gosto muito de ti.
terça-feira, 26 de Junho de 2007
fardo, a epidemia
do Ár. fard, pano, trouxa
s. m.,
coisa ou um conjunto de coisas, mais ou menos pesadas e volumosas, que, depois de embrulhadas, se destinam a transporte;
pacote, embrulho;
carga;
fig.,
o que custa a suportar ou o que impõe responsabilidades.
Não deve existir no mundo quem nunca tenha carregado um fardo. Mas penso que devo conformar-me porque, no fundo, tudo deve fazer parte das nossas raízes culturais; mais do que isso, do âmago profundo das nossas raízes. É por isto que me insurjo contra as pessoas que dizem que este ou aquele vem da idade da pedra. Ninguém é da idade da pedra, isso é um absurdo. Se quiserem vilipendiar alguém com esta expressão, digam antes
- Olhe, você é da idade da pedra polida
é um insulto muito mais distinto e foi por esta altura, período Neolítico, que se começou a fazer a agricultura e a pastorícia. E foi nesta altura que nasceram os fardos, com certeza. São mais antigos que os metais! Não obstante, os fardos acabaram por sofrer alterações ao longo do tempo e hoje em dia podem tomar várias formas e feitios, existem em quantidades industriais e a população mundial é obrigada a com eles ter uma convivência forçada.
Tens um fardo e dele não te consegues libertar? Eu também...
És um fardo? Faz dieta!
sábado, 23 de Junho de 2007
passa-tempo-estofa-dor
segunda-feira, 18 de Junho de 2007
lugares comuns
por mais que queiras ser diferente és apenas
mais um por mais que sejas diferente és apenas
uma pessoa normal para quem um gesto não chega
para mudar
é preciso mais do que fugir mas também
não é possível ficar e assim com um pé atrás e um pé
à frente tu não sais do mesmo lugar
querer morrer não basta nem satisfaz
é preciso renascer com cada prato de sopa e o essencial
não é levar a comida à boca assim um gesto não chega
há que parar
há que ter fome ainda que nada te alimente
ou então faz como eu
e aprende a cozinhar.
Triste é por vezes o cheiro da comida que se deixou estragar
- com tanta gente a morrer à fome
mas não tenhas remorsos, como poderás saber se a tua morte
não será ainda mais cruel
ou se cada morte pequena uma após
a outra
te tirará a vontade de comer
até te provocar um distúrbio alimentar
não comas também demais porque
podes engordar e hoje em dia não há
formosura maior do que ter quase tudo no lugar
sábado, 16 de Junho de 2007
segunda-feira, 4 de Junho de 2007
quinta-feira, 31 de Maio de 2007
à demain

Ninguém pode dizer o que restará
de mim
talvez os pardais dependurados nos ramos em prévia forca
possam cantar languidamente
o milagre da minha vida
se ao menos alguém pudesse escrever uma epopeia só de olhar o vazio
da minha bagagem
eu pudesse escrever nos jardins o anoitecer
da minha semente
quarta-feira, 30 de Maio de 2007
high hopes - pink floyd (banda sonora do hoje para o além)
In a world of magnets and miracles
Our thoughts strayed constantly and without boundary
The ringing of the division bell had begun
Along the Long Road and on down the Causeway
Do they still meet there by the Cut
There was a ragged band that followed in our footsteps
Running before time took our dreams away
Leaving the myriad small creatures trying to tie us to the ground
To a life consumed by slow decay
The grass was greener
The light was brighter
With friends surrounded
The nights of wonder
Looking beyond the embers of bridges glowing behind us
To a glimpse of how green it was on the other side
Steps taken forwards but sleepwalking back again
Dragged by the force of some inner tide
At a higher altitude with flag unfurled
We reached the dizzy heights of that dreamed of world
Encumbered forever by desire and ambition
There's a hunger still unsatisfied
Our weary eyes still stray to the horizon
Though down this road we've been so many times
The grass was greener
The light was brighter
The taste was sweeter
The nights of wonder
With friends surrounded
The dawn mist glowing
The water flowing
The endless river
Forever and ever
terça-feira, 29 de Maio de 2007
je me suis faite un quai d'orsay
cheiram apenas ao aroma de quem embalaram antes
cheiram aos antebraços de outra pessoa
cheiram ao pescoço de alguém que eu não sei onde nem soube
porquê
o embalamento
porquê o rapto
eu não sou um artefacto
eu não sou um alimento
sendo assim porquê
o embalamento é um isolamento é uma prisão
se tu só tens dois pulmões por que é que
fumas
se tu só tens duas mãos por que é que
agarras
é por só teres um corpo que só
manipulas
é quando me levas ao cais que eu abdico do meu trono
e deixo contigo tudo e caio
no fundo do rio pouco profundo
o que é o combustível sem chama
o que é a queda sem ter por onde cair
o que é o fim sem ter por onde começar
vou querer cair só por mim
vou querer cair pela minha própria mão
se ainda tiver coração vou
querer cair
em mim
hoje eu sinto-me como a cinza que saltou
fora
hoje eu sinto-me como se eu fosse
embora
da minha vida
hoje eu sinto-me como em cada porta estar
de saída
mas aguento firme no umbral
alguém sabe o que é aguentar firme num umbral
com uma porta sempre entreaberta
não queria, eu juro eu não queria ser
a prateleira do pão quente feito da secura do trigo
eu não queria ser o vinho no mosto
feito das parras depenadas das uvas
eu não queria ser o resto da conta
de dividir estou farta de aguentar como um poste
de dizer a sorte com as cartas
de jogar
hoje eu sinto-me como a borboleta que desabrochou
da flor
eu sinto-me como a pétala que ficou
para trás
eu sinto-me isso
o toque virginal da reacção imprevista
da permissividade de tudo aquilo que se abre de livre
vontade
mas não suporto este desporto de saltar
barreiras
eu já caí
a saltar barreiras consegui
umas pernas partidas só por ter conseguido
tudo o que queria
subitamente hoje quero
o que me apetecer
e ainda assim não sei porquê não quero
nada
o nada excepto aquilo que de mim mesma foi sugado
e alienado em recados vãos adulterados de uma recordação de mim
flash de memória, onde podes estar
por entre que meandros que foram num compasso de um impasse silenciados
só porque clamavam o meu nome
podes tu estar no silvo de um morcego, numa história alucinante
onde a super solidão fosse heroína por me apetecer
a cada dia
algo diferente
de um cavalo
alado
por isso hoje eu sinto-me o guardanapo já usado que não sabe se vai ser
reciclado
hoje eu sinto-me o pão já comido da prateleira
da árvore cortada
das ceifeiras com as trouxas da comida e o vinho dos maridos
ao colo delas um avental onde eu pudesse
chorar
até querer parar por estar realmente farta e não com medo
de alguém me ouvir
só por alimentar ilusões
caridosamente
como se hoje as sentíssemos gatos vadios
como se hoje fossem um sem-abrigo
como se hoje fosse a nossa indulgência dar-lhes como viver
o que é que eu faria sem ti
loira loucura que nasces e morres que farias sem o malte que te dá demasiado
sabor que faria eu sem a espuma que me afaga as gengivas
do sabor incolor do teu sabor
multiplicado por todos os outros
não és nada
nunca serás nada
porque simplesmente não foste
nada impedirá o sonho a realidade construída a partir das pétalas
caídas onde a larva da borboleta já poisou e de onde
as suas asas descolaram coloridas como embalagens de detergentes para a loiça
que não reflectem nenhuma essência da doçura
da morte
ou de a sorte poder ser só um mero acaso
e de o azar ser fatal como um reflexo no espelho
embaciado o olhar perdido
partido em vários extremos como se isso
hoje pudesse existir como se
hoje pudesse acreditar nas coisas pelos outros percebidas
hoje eu devia acreditar nas coisas por mim ignoradas
em vez de procurar as coisas
proíbidas e de repente eu deixo de ser
eu sou outro lado como outro azulejo de uma fonte que não fosse
o anteriormente fitado na vigorosa floresta escura
e de repente eu páro de ser
eu mudo-me para outra dimensão onde
nas florestas só haja flores rasteiras para poder ver tanto a terra
como o céu polvilhado de todas as coisas que um dia
ansiámos por ser
E se os barcos conseguissem navegar através
das emoções?!
E se do meu nariz crescesse um repuxo de nuvens
e se da minha boca fluorescesse um ramo de luzes
e se todo o meu desequilíbrio fosse uma viagem equiparada
ao descobrir do que já foi desvendado
algures na tela amarela pelo destino
pintado
e se os meus dedos fossem pára-quedas que não soubessem
aterrar
e se os meu medos fossem a coragem de os provocar
e se eu tivesse uma santa a quem orasse
dá-me tentáculos dá-me tentáculos
por favor
diante dos pessegueiros enche-me, corre atrás de mim
apanha-me e dá-me o grasnar dos patos que sonham com ondas maiores
dá-me o ralhar das comadres cansadas de esperar no restaurante
dá-me a publicidade dos filmes em que todos são felizes
para sempre dá-me alguma coisa
onde mergulhar
alguma terra de onde eu possa arrastar a mercadoria que me
contém
se eu fosse uma pedra queria que me deixassem estar no lugar
próximo de ti
sejas tu quem fores, Matilde onde eu nasci
não ia querer viajar como fazem
todas as pedras pelo ar
como hoje sou um barco capaz de atracar ao mesmo tempo em vários cais
um barco que espalha o peixe pelo mar que já pescou
só de levemente o pisar
e se eu tivesse canos como as paredes têm
e eles se entupissem de repente
e se toda a gente soprasse ao meu ouvido
- desentope
e se eu fosse uma garrafa que saltasse das mãos
e todo o conteúdo desperdiçado por um mau
manejamento
eu não quero conhecer-me porque faço tudo
para me magoar, como posso eu querer conhecer
alguém assim?
Aquele movimento de vaivém é primoroso
aquando da criação do vácuo necessário
para libertar batatas fritas húmidas
é engraçado como sabemos o quão oleosas
foram e agora as vemos frágeis
caídas como lágrimas incontidas
as que eu sempre quis chorar
desde que me queriam roubar tudo o que eu tinha
e eu nunca quis dar nada mas soube sempre dar
tudo
e no fundo
todos os fogos serão fátuos por nascerem
à partida apagados por quem os queria engolir
mas que espectáculo! Engolir fogos como se fossem uma fúria sucedânea
de um caroço atrevido de cereja a gritar nas goelas gratinadas
de uma criança
onde os olhos fossem da cor das margens tremidas dos rios
em redor
que se rodeassem de água e de linhas de comboios
onde as mercadorias de alguém que viesse pudessem
desaguar
da mesma forma que o meu sinal eléctrico fora enviado
só depois vem a aleluia da não concretização do que se idealizou
porque no fundo era isso que idealizáramos
por entre os sonhos de entre os sonhos
onde tudo fosse líquido constantemente líquido
onde nada afluísse e nada desaguasse
onde nenhuma torneira abrisse ou fechasse
onde o fluir de tudo fosse
um destes dias como o trovejar de um navio a partir para albaroar
pontes
o piar de uma locomotiva a deixar mais passageiros
para eu viajar no tempo
no quai d'orsay porque
je me suis faite un quai d'orsay
questão existencial
Ambivalentemente, claro.
questão inexistencial
sexta-feira, 25 de Maio de 2007
sobre a ambiguidade do tempo
Por outro lado será que não temos, paralelamente ao tempo, um destino já traçado de sucessivas intervenções inter temporais? Como se a linha do tempo fosse um ritmo constante e a linha do destino, da sorte e do azar, do por acaso, do puro acaso, fosse a melodia que a preenchesse e nos deslocássemos através da primeira com as mudanças dos compassos.
E, se a vida é uma arte, não seria insípida a realidade se somente o tempo existisse, sem mais nada? Não será cada objectivo final que possamos ter o verdadeiro impulsionador artístico da nossa vida? Não será tudo o que fazemos até lá chegarmos juntamente com o momento em que o atingimos a verdadeira arte?
Quem disse que a arte é intemporal? A arte é também temporal, na certeza exausta da ambiguidade que o tempo contém.
terça-feira, 22 de Maio de 2007
Quai d'Orsay
talvez gostasses de ter outro nome
talvez gostasses de não ser a união de dois rios
dhoo glass
talvez gostasses de amar o teu nome
(ilha o mar
separa-me de ti)
eu posso proferi-lo lentamente no lugar onde os teus dois rios se cruzam
ou mesmo deixar-me levar pela corrente de um
ou do outro
mas tu própria afundas as pequenas embarcações de papel
que eu
deito no manto óbvio ávido ao tirar
os óculos para ver pior a profundidade das coisas pálidas que podem ser
o fim do mundo entre acidentes e casinos clandestinos
oh, se eu fosse um gato sem cauda
será que te pertencia
e se eu fosse um esboço daquilo que já viveste que preenchesses
que colorisses
para viveres o que te resta
(fonte
seca) tenho sede e tu preferes matar-me
a matá-la (mão
distante) se eu pudesse dançar o tango
com os nossos dedos noticiar ao mundo a catástrofe
da nossa distância capitalizada
em garrafais letras o resgate e o pedido e
a súplica celta, as energias dos aplausos
por te encontrar de vez (em quando)
fere-me
a intensidade
dos acidentes
que chegam pelo fim da tarde contra os pilares das pontes
pericárdios rasgados rompidas as veias
pulmonares suspiros vãos pequenos choques
afogueados eléctricos espasmódicos
nada me salvou ou será que a princesa
discretamente me tirou a vida à sua vida tão cheia
de nada de ti
Erguida a estátua em Paris, Diana
viajei contigo para imaginarmos
nessa mesma viagem todas as luzes
onde o regresso fosse
sempre adiado onde o lugar comum fosse
reinventado onde as ondas deleitassem o nosso olhar
sem o afastar sem pôr na margem
os nossos passos etéreos
ébrios como as reticências das frases
e as moscas do rio Sena
sexta-feira, 18 de Maio de 2007
Querida Maria e Manuel (desiste)
Desisto dos violoncelos e das lágrimas doces, medianas
como se vivessem num mundo onde só houvesse outono e primavera
e as mulheres fossem todas primas e veras e aos homens
caísse o cabelo muito cedo na indistinguível vulgaridade dos géneros
das variedades inóspitas que nunca se julgaram
e a luta enferma do eu e o
e o tu serem únicos e por vezes
um único pequeno nada que se afoga
na margem idílica do rio como um oásis de cereais como
os dedos dos oleiros o malte das cervejas
e uma amizade que se teve um dia mas
no súbito encurtar das feridas na dilatação irregular do tempo
na metereologia enfadonha que se ouviu rugir na janela
na matemática nos cadernos com triângulos tabuadas resultados
que se cessa por raiva explorar e acaba e acaba
como tudo o que é concreto
como tudo o que tem forma
como os trapos de uma boneca e até mesmo os sentimentos
acabam
e ainda assim tenuamente assombram as memórias
e o tempo nunca acaba
o amor acaba mas
o tempo nunca acaba
mas o amor acaba
e quase nunca se satisfaz
quase nunca é sempre verde e poucas vezes ou nem sempre é
muito intenso
por isso eu dispenso
porque eu posso acabar várias vezes mas o tempo
não o tempo não
o tempo não tem travão não tem rumo
o tempo é um aprumo constante e não acaba
aberrante e
não acaba o tempo nunca acaba
mas pequenos nadas como o amor
o amor acaba
o tempo continua a sua infindável jornada
e o amor é só um pico alto no electrotempograma que preenche
a nossa vida
a nossa dúvida e a nossa única
certeza
e eu desisto
porque não me pertencem deixo de me preocupar com a temporalidade das coisas
e com o infinito
a comida vai ficar sempre no prato
a sociedade será sempre despida
e para sempre cada encontro com uma despedida
como uma despedida
a paixão nem sempre é verde
é por vezes morta
tem essa cor agreste e temível e ao mesmo tempo doce aprazível
que apetece tantas vezes comer
porque a dieta também é algo que sempre se acaba e se começa
oh, eu desisto! Desisto disto tudo tudo é qualquer insignificância como
um pedaço de cinza que caiu no momento em que me disseste
não
tudo acabará por ser uma fragrância como
chouriços a fumegar sobre o fogão e o cheiro a voar por entre os azulejos
vermelhos e brancos
porque o verde
já não existe
acabou
por isso desiste tu também
oh pequena areia da praia, oh pequena onda do mar
desiste porque onde quer que vás
acabarás por ficar no mesmo sítio
porque vais e vens sem parar
e serás lembrado no mesmo lugar de recônditos infernos
ou mesmo em esperanças ténues de algo que virá
e se sabe que nunca
nunca aconteceu
desiste
primeiro acredita e tem êxtases
e depois desiste!
Faz como eu, oh estrela palpitante do sistema solar
desiste antes que a tua explosão iminente espalhe a galáxia de poeira
desiste porque tudo é um breve aceno
e por vezes tudo é um breve pontapé
bandeiras que ingerimos, os tilintares das moedas que ouvimos
como um podófilo a quem os pés fossem amputados
por violar nódoas negras
desiste porque o sentido das coisas é aleatório como as fezes dos pombos
fortuito como um choque imprevisto de duas obesas mães de filhos
no supermercado cheio de velhos enrugados
a terna terceira idade dos lares
onde acabam por morrer como crianças
começo a cansar-me de avisar para que não esperes nada
pequeno nada
vai embora
como o teu pai e a tua mãe por vezes foram
ó órfão ó coitado
miserável
sai daqui enquanto podes
sai antes que te venham buscar
não sigas o caminho por que todos os outros se deixam levar
sê anarca, coitadinho, sê anarca!
Desiste porque o tempo não acaba!
Mas o amor acaba!
Talvez nunca tenha chegado a saber o teu nome verdadeiro
no entanto chega-me o hipotético nome que possas ter
o nome que eu te dou
mesmo porque és parte do meu ser
mas desiste
porque como vês nem sequer sei o teu nome
nem sei qual é o nome da tua mãe
não te conheço bem
mas deves gostar de batatas fritas
como eu com sal
porque todos temos um âmbito comum
desiste.
Não queiras deixar crescer demasiado o cabelo
depois estraga-se
depois acaba-se o cabelo
não é verde, assim como a galáxia também não é verde e também não sabe o meu nome
ou um nome que seja teu
e a união das coisas pode muito bem ser um desenlace de outra coisa qualquer
desiste
chega ao êxtase e desiste porque depois nada chega a valer a pena
nem o nada que tu és
porque verde tu não és
porque verbo tu não és
tu não és uma acção
és um ai ou um ui como toda a gente ou quem sabe
se tiveres sorte
um mero acento que toda a diferença faz na orientação
dos sentidos
perseguir, perseguir os peixes só para ter alguém
com quem falar
alguém com os teus cabelos ou do mesmo signo que tu
só para te comparar e ter a certeza finita de que és tão melhor
e tão pior
desiste, desiste enquanto há tempo!
Desiste antes que o camião do lixo em marcha atrás te venha atropelar
desiste depois de teres as primeiras dores menstruais
atinge o êxtase do sofrimento e espeta uma faca no ventre para que não padeças
da antecipação da tua própria dor
e vê um deus ou um escarro qualquer de repente
que em nada quer contribuir para a tua sobrevivência
e para o esverdear do teu amor
e morres na mesma e não é cor-de-rosa
é essa cor acre da morte, é essa cor de mandíbulas da morte
só o tempo intacto as transpõe
pequeno nada, desiste
nunca vais encontrar o que desejas
vive o êxtase e desiste
como um bom menino obediente
que a uma simples ordem pára de repetir ai ui vai
à missa que eu já fui
mas não! Há que andar a propagandear por aí as religiões, as apetências dos deuses
que nem viram nem sentiram nem nada nunca hão de sentir
ao contrário de ti, que tens êxtases.
Chora o que tiveres que chorar
desiste
e deixa de esperar.
Eu desisto tu desistes e toda a conjugação do verbo
quero eu agraciar
porque o amor acaba
obrigada
quinta-feira, 10 de Maio de 2007
abrasivo
milhões de presentes passados jardins e estátuas de calcário
rostos aborrecidos narizes recortados
sonhos que terminaram como o pólen que esvoaça no ar acaba sempre atapetado na calçada
com a chuva
não tenho festas não tenho palhaços nem abraços
assim é necessário mas difícil
manter
a chama da ternura sempre incandescente mas só
para que seja vista
como os coletes reflectores dos peões encardidos das romarias
onde está a doçura doentia das viçosas cenouras a romper a terra
onde está a submissão das desculpas onde estão os perdões
os perdidos
no labirinto
onde não é a entrada a saída
onde está o ajoelhar da obsessão onde está o vassalo da relação
eu não me dobro mais
como um colchão guardado no armário
há muito tempo
e não cheira bem
o amor
onde está o amor junto da guerra será feliz
como os soldados traumatizados e
loucamente irracional como o fluir dos espirros numa lacrimosa constipação
e podermos pairar no ar planar como as nossas bactérias e
ainda assim continuarmos sempre aos pés de um deus
somos as suas unhas dos pés
que estão sempre a crescer e ele corta sem parar
almiscarado aroma dos joanetes que se espraiam como as falésias por água dentro
saltos altos
e no cimo do último rochedo um pincel dentro de um balde e a tinta
a cor-de-rosa escrevia no céu palavras doentes
vermelhas
e não havia diluentes que as pudessem apagar sanguíneas
as memórias os corações tão partidos como cebola picada a estalar no oléo das frituras sucessivas
quando saía da piscina os calções rasgaram-se e ele não estava sozinho
mas coitado
era careca desde miúdo
e nem tinha a felicidade púbere de ter pêlos no púbis
nunca mais o vi mas sempre imaginei que passasse frio
milhões de calções de boa qualidade e logo havia de comprar aqueles
e fiz nudismo até aos três anos
sob o visionamento rigoroso dos meus pais
no entanto não havia sítio nenhum onde ficar
nunca quis mudar mas
como o girino faz parte da rã
tive que começar a vestir-me
a tempestuosidade do ídolo em queda livre
voar em qualquer outra coisa para além das idealizações quiméricas
o fim do mundo pode ser qualquer ponta de qualquer meada
e até eu sou muito mais do que um novelo
muito mais vasta que o alcance de uma flauta
muito mais alta que a rainha do canavial
por isso fui ao fundo enquanto deambulava pelo rio sem margens
mas nua ou vestida
nunca vi o mar
só soube sonhar com as fogueiras acesas na areia
ternura
num dueto as ondas que rebentam e a lenha que
crepita craquelum craquelum
quarta-feira, 9 de Maio de 2007
que eu pudesse encontrar-te ao procurar-me
saber-me-ia a fruta já trincada
no convívio conhecido de mim mesma ou seria pelo contrário
uma experiência inusitada uma epopeia como um furacão que
abalasse sem destruir ou um oceano de naufrágios que
destruísse sem matar e afogar-me
no meu próprio cheiro quem me dera
imiscuir o ar dos meus suspiros nos meus pulmões enegrecidos
partilhar a dor do meu cansaço no meu regaço
poder olhar-me sem que eu fosse somente a auto-imagem esbatida
no espelho baço
sem que eu fosse somente a pixelização preta e branca e estática de uma fotografia
desfocada nunca realizável na imagem que de mim mesma tenho nunca
tridimensional por favor por favor
eu quero ter-me nos meus braços enlanguescer-me
na minha força nos meus braços
os meus braços que não fossem os meus
nas minhas mãos uns dedos iguais aos meus que eu sentisse estranhos
queria poder arrepiar o meu próprio dorso e carcomer
a minha orelha queria olhar para os meus olhos afiados com as unhas
sem saber o que diziam
imaginar as histórias que não querem contar
de uma outra infância que aconteceu queria saber quem já me deu de beber
queria saber o sabor dos agriões colhidos à beira da estrada
as rainhas sem coroa as melodias dos trovadores as tonturas das outras vidas
quem me dera morrer e
sentir a dor da minha própria perda
chorar da ausência das minhas lágrimas
depois de ter morto a sede
na minha própria saliva
espero inconsequente por mim mesma e
esperar faz-me pensar e
pensar faz-me esperar esperar-me
um dia mais tarde, quando recair a neve no mundo sobre montanhas por erguer
quando já o mar tiver engolido os passeios que teríamos pisado
quando tiver passado o tempo de nos esquecermos lembrarmos
as filas de carros sobrepostos no trânsito
as migalhas de pão inocentes sobre as mesas das pastelarias
as constelações que ficaram por ver nas noites de coisas mais acesas
os silêncios que nos penetraram nos ouvidos e
na minha boca a minha boca que não fosse
a minha boca
segunda-feira, 30 de Abril de 2007
todos os caminhos para longe de mim
Não sei. Não sei como tudo se processa, nem porquê. Não sei se o meu amanhã poderá ser infinitamente adiado. Não sei o que me vai acontecer amanhã. Amanhã é um dia. Um dia igual a outro dia qualquer do ano que vem.
Havemos de nos afastar um dia. Pode ser amanhã, ou daqui a dois dias, ou daqui a dois anos. Se quem está mais próximo acaba sempre por sofrer, mais vale que se criem barreiras e caminhos complicados para que um alcance não possa estabelecer-se.
Infinitamente triste.
quarta-feira, 18 de Abril de 2007
só vos abandonaria se ficasse
um infinito que acaba e começa e assim
a minhoca tentava correr atrás do próprio rabo mas não sabia
em que extremidade o mesmo se encontrava
era tão infeliz tentava coçar a cabeça
quando pensava mas não sabia onde ela estava
era tão gorda tentava emagrecer
mas não conseguia parar
de comer tentava por ser tão pequena
levantar-se mas os seus anéis de latão pesavam tanto
que a prendiam ao chão arrastava-se tentava por ser frágil
não ser pisada mas era sempre apanhada
esmagada pela pata voluptuosa do inimigo
perseguida pelas sombras monstruosas das pessoas
que nunca a deixariam ter filhos nem viver para sempre feliz
e havia qualquer coisa na sua voz monótona e fátua que implorava
tragam uma cerveja à minhoca
está com sede secura
na boca
tragam um cachimbo à bichoca
já aceso
que quer ficar com a moca
que partia de encontro a um sítio onde não se sabe quem são
e se gosta de uma forma absorta
a primeira
partia lentamente e nunca mais partia
não se sabia
para seu bem, um lugar onde se encontrasse mas
a minhoca só vos abandonaria se ficasse
sábado, 14 de Abril de 2007
sobre a arte
Há decerto um consenso no que respeita ao estado de espírito mais frequentemente sentido pelas pessoas que passam os seus dias a pensar no passado. Carolina era uma dessas pessoas, e fazia-o de uma fora completamente maníaca, recordando-se do inimaginável. Os artistas em geral devem reflectir muito sobre acontecimentos volvidos, devem tentar ramificá-los em todas as alternativas possíveis, tentando tornar o tempo num sistema versátil, dois homens conversam no café: será que se a Ana não tivesse tropeçado no André por acaso no meio da rua o filho deles teria nascido, tentam relacionar uns acontecimentos com os outros de uma forma intrínseca, como se todas as coisas levassem às outras coisas, como se à partida, na génese do mundo, estivessem todos os acontecimentos, todas as formas de vida, activas e passivas, por demais previstas e racionalizadas, como se o objectivo de uma coisa no mundo fosse precisamente o de servir como justificação a outra coisa qualquer. Mas sendo assim, qual é a coisa qual é ela que um dia serviu para explicar outra coisa e, por sucessão, todas as outras coisas? Qual é a razão de ser do mundo? O que é que constituiria um motivo para que todas as coisas viessem a ser criadas?
Carolina achava que a arte era um modo de expressão de acontecimentos passados e da relação entre eles. Achava que a arte é ser cada vez mais triste, desesperando na memória de cada beijo e, no momento de criação, sentir cada beijo como um desespero. Sentir o que passou e o que podia ter-se passado, no fundo, sentir os sonhos, mas só os sonhos do que podia ter acontecido. Sonhar com um avião de papel que nunca caiu, e só passado instantes chegar à constatação óbvia de que o avião nunca caiu por nunca ter voado. Ao mesmo tempo, a arte é ter a coragem de fugir, a arte é encontrar refúgio, é a cobardia, é o lado emocional irracional de tudo, porque onde não há sentimento talvez não possa haver arte. E a arte é ainda mais do que tudo isto, um passaporte para a imortalidade. Vamos ser artistas, vamos tentar conquistar a nossa imortalidade, vamos permanecer no mundo sob a forma de coisas, vamos ser provavelmente mais activos depois de morrer do que enquanto estivemos vivos! O poder da arte! As dimensões a que pode transportar, as diferentes interpretações de que pode ser alvo! As alturas a que ascende, como se sublimasse pelo céu adentro, planando por vezes com as asas musculadas de uma águia, com as suas garras aguçadas, prontas a serem cravadas num qualquer coração, os seus olhos belos, dotados de uma arrebatadora visão, do ponto exacto onde todas as coisas se encontram, e a velocidade a que voa, e pode ser um voo curto mas, enquanto expressão artística, verdadeiramente belo.
Talvez a arte possa ser, então, a justificação de todas as coisas, e não a primeira coisa do mundo que servisse de justificação às outras. Todas as outras existiram para que a arte se pudesse realizar, o céu e o inferno foram criados para que a arte pudesse ser a transmissora mais mística e implacável do seu surgimento, Adão nasceu para que Eva nascesse para que pudesse comer a maçã que nasceu para que os pintores impressionistas conseguissem captar a beleza de uma maçã assada sobre a mesa sob a forma de vigorosas pinceladas! As pessoas só se amam para que a partir desse sentimento os poetas possam fazer correr a sua tinta! A mama da mulher só brotou do seu dorso para que, tendo-a como modelo, os escultores pudessem moldar-lhes na pedra os mamilos! E a morte, a passagem do tempo, só foi fatalmente inventada para engrandecer progressivamente a arte e eternizar os seus criadores!
segunda-feira, 9 de Abril de 2007
anti-funambulismo
O coração bate
para o ouvir basta estar próximo ou ligá-lo a uma máquina
e ainda assim monocordicamente
a ausência de vida faz barulho
como se as portas da morte se abrissem
e como petróleo por desenterrar
não fechassem até ao desabrochar do primeiro pranto
não selassem até à oxidação de cada entranha
até que a carne exale a transparência pálida do sangue que parou
até que a carne tenha o sabor de anéis de prata
há muito tempo guardados será que
os coveiros se procuram nas profundezas que abrem
será que há alguma técnica para a profundidade para além
de morrer para além de escavar no silêncio vêem mais morte
do que vida e será que são tristes
como um nenúfar nunca calcado por um batráquio
será que são como marcos de correio onde já não se ouve o baque dos sobrescritos
será que são a mulher regando as plantas na varanda será que
são o ferro forjado da varanda
será que são o cobertor demasiado pequeno
será que são idiotas
será que ao ver as minhas luvas conseguirias tecer os meus dedos na tua imaginação?
Escapa-me tanto a paz
bate-me desordenado o coração e não o consigo ouvir escapa-me tanto
nas mãos idealizadas só a guerra
a afligi-las o vento que as sobrevoa sem a ternura das coisas, sem a simplicidade
do que poderiam ser face à complexidade que foram sempre
como se cortar as unhas fossem bombas
como se a intensidade fosse o átomo fissurado a explosão
e tudo escapa nos fragmentos dispersos das coisas que atinjo
conseguirias imaginar o teu coração a agarrar a minha mão
como um cortador de relva
a tua pele a sorver a seiva como que a sorver o sangue
a tua mão a agarrar na flor bem me quer
tirar as pétalas bem me quer
e eu consigo imaginar a alegria dos meus dedos
a euforia das minhas pétalas arrancadas
ainda que tudo escape ainda que o silêncio seja o zumbido esvaído da voz que não consegue ter
o malmequer
bem te quer tanto
sábado, 7 de Abril de 2007
o grito da garganta cortada
gostava de ser uma nuvem negra para as visitar em romaria
comparecer no funeral de alguém que nunca conheci chorar
a morte com uma alegria estonteante que obrigasse os guarda-chuvas a florir ao longe
cobrindo os olhos murchos dos familiares mais afastados pelo tédio
as solas dos sapatos húmidas na erva verde derrubada
as mãos trémulas de um padre que orasse pelos seus próprios pecados
debaixo de uma árvore onde maçãs amargas amadurecessem os coveiros
a sacudir a terra dos joelhos
as vestes longas negras de uma mãe que derramasse
as gordas lágrimas que sempre guardara para aquele momento
o desespero feito de gemidos dolorosos como se vários a penetrassem. Gostava
de viajar sem rumo contra o céu como as nuvens altas entrecortadas
pelas asas dos pássaros de forma abstracta sorver o mar e nunca
nunca há só uma nuvem
gostava de andar sempre de mãos dadas com alguém que soubesse voar
por favor pedi para gritar
que a minha garganta se desmembrasse como as comportas podres de uma barragem saturada
numa aldeia envelhecida onde os muros altos das colinas fossem feitos de barro maculado
pelo tempo e invadidos pelas raízes grossas das árvores centenárias e os troncos nodosos
fossem cortados por mãos ásperas e deformadas e ardessem nas lareiras frias
das habitações quase vazias assombradas
que o meu grito saísse naturalmente como o fumo a trepar a chaminé
mas sou só cinza só fuligem só um coração carbonizado
sou só silêncio afonia só ausência
e que esse estrondo gutural e triste grito aprisionado na melancolia surgisse
inconsequentemente como um acidente redentor
e que fosse mais alto que uma nuvem mais embrutecido do que um raio
mais denso do que chumbo
maior do que o mundo enérgico
como o grito de um monstro magoado por ter amado
mais implacável do que a morte. Gostava de ter
sorte.
quinta-feira, 29 de Março de 2007
retrospecção alienada

Os meus olhos morrem, querem fechar-se à força. Mas eu não deixo porque, pelo menos isto, tenho que escrever.
Já não sei viver sem ti [precisava tanto de tudo o que foste às vezes].
Naquelas estradas empoeiradas que percorríamos depois de termos saído da escola, quem sabe, tínhamos faltado às aulas. Tu tossias, no teu passo ligeiramente apressado e eu deixava-me ficar um pouco para trás só para observar a tua silhueta progressiva.
Num passo após o outro que, dia após dia, com toda esta distância e este tempo sem te ver eu fui esquecendo. A tua maravilhosa gargalhada por entre as consecutivas lágrimas dos teus olhos e eu martirizava-me por te ter ensinado a ser assim.
A beleza de uma varanda alta onde ao longe se ouçam as betoneiras a rugir em pleno dia. O telejornal, o prato de sopa na mesa da cozinha. O quarto com o teu cheiro, eu querer ser aquele quarto. Tantas coisas por nós inexploradas, e então, o que tem isso a ver com o que sou hoje?
Houve uma altura em que querias ser arquitecta e eu nunca soube o que queria ser. Construímos um relógio de sol num dia de chuva e eu soube sempre que havia de te perder e que havia de me perder.
Nunca mais niguém me vai econtrar, não há nunca a hora certa nem o tempo certo para mim, nem o lugar.
terça-feira, 27 de Março de 2007
vidas reais - Maria
terça-feira, 20 de Março de 2007
ÚLTIMA HORA

STEVE VAI REGRESSA A PORTUGAL DEPOIS DE TER ESTADO CÁ PELA ÚLTIMA VEZ EM NOVEMBRO DE 2005.
DIAS NOVE E DEZ DE JULHO NO PORTO E EM LISBOA, RESPECTIVAMENTE.
ESTOU EXULTANTE!!!!!!!!!
segunda-feira, 19 de Março de 2007
momento musical
Pretending I'm doing well (ooh ooh)
My need is such I pretend too much
I'm lonely but no one can tell
Oh yes I'm the great pretender (ooh ooh)
Adrift in a world of my own (ooh ooh)
I play the game but to my real shame
You've left me to dream all alone
Too real is this feeling of make believe
Too real when I feel what my heart can't conceal
Ooh Ooh yes I'm the great pretender (ooh ooh)
Just laughing and gay like a clown (ooh ooh)
I seem to be what I'm not (you see)
I'm wearing my heart like a crown
Pretending that you're still around
Freddy Mercury - The Great Pretender
domingo, 18 de Março de 2007
boneca de neve
encolhida e só na penumbra empobrecida o gozo doloroso que isso me dá
a monotonia monocromática acolhe-me sem cansaço e nela me aconchego
por ser como eu imóvel escura triste
exaspera-me mais o barulho a memória dos sorrisos o trombetear das ambulâncias
a água a ferver na panela de alumínio, a rivalidade dos pratos
não ser o teu sorriso
não te acudir
não cozinhar para ti
não ser o teu alimento preferido enquanto
junto à outra parede desperta pelo brilho dos candeeiros um piano inquieto vai soando
nas teclas brancas amarelas perdem-se os dedos de alguém que não existe
porque não és tu mas quem me dera
existindo
perder-me nos compassos incertos da tua música
no âmago doce dos teus traços
na prioridade amargurada dos teus gestos
imiscuir-me numa melodia desafinada que cantasses eloquente
pela emoção que tivesses fruto do nada como ferida que tanto arde
de termos caído sem querer ao tropeçar numa das pedras do caminho
ser a cauda do teu piano que se estendesse em sonhos ao longo de um curso de água
onde os peixes balançassem nos anzóis
onde as iscas desfeitas fossem a doce recordação do pescador que nunca fora num navio
acoplado ao rodopio fútil dos búzios nas mãos de uma criança
o ruído fictício da espuma das ondas rebentando com fúria na areia e eu
queria tanto ser
a cal velha da parede onde te encostasses para que fragmentos de mim sussurrassem
na tua roupa
as nervuras das flores que cheirasses para colmatar os teus sentidos
mais do que realmente sou, todas as coisas subtis
ligadas às teclas as cordas que com os teus dedos afogueados martelasses
quem me dera que as tuas pupilas se dilatassem se eu tocasse
os dedos dos teus pés
como a neve a crescer nas montanhas o teu caucasiano olhar
como arrepio enleado de um cubo de gelo a roçar a pele pálida
queria tanto derreter-me no teu dorso protuberante
quem me dera ser
a boneca de neve onde o teu cachecol aconchegasses
como se a frieza tivesse solução
como se eu não tivesse vida para além de ti
compreendo que te exaspere o meu silêncio que as minhas palavras sejam só
ecos do que já foi dito
compreendo que não gostes de quem sou na ilusão
alegre e triste de quem poderia ser
mas ouvir-me requer mais do que ouvidos
eu fui erva plantada em outro planeta
podias descobrir-me sem me culpar por ser distante
ausente como o prazer de ver as horas no teu relógio segurando o teu pulso
frágil na iminência de quebrar, as lágrimas o pranto introspectivo
tudo isso é meu, em vez de ti.
Na ausência de um guarda-chuva eu poderia sacudir-te as gotículas de água das pestanas
e ser o teu abrigo póstumo rudimentar
enquanto te beijasse os olhos no meio do mundo globalizado
e associasse a ti a fragrância revitalizante da terra húmida
e regasse de consolo a minha mente enlameada perversa
rodar-te-ia com destreza se te encontrasse num bordel
comprar-te-ia tudo o que não pudesses dar
humilhar-te-ia como se pisasse um verme da cor do barro por moldar
erguer-te-ia só para te ver cair
e ainda assim te percebo estrondosamente
porque a frieza não tem solução eu sou o problema
que gostavas tanto de poder gostar resolver
gostavas que o teu cachecol me servisse e aquecesse
ainda assim quem me dera ser
a tua boneca de neve.
quinta-feira, 15 de Março de 2007
mojito
e um dia quando a tivéssemos
iriamos lembrar-nos das energias que em círculo fechámos
como se os nossos membros se dissolvessem uns nos outros e soltassem
pequenos fragmentos tempestades de areia desertos pálidos
oásis por percorrer nas tuas mãos apoteóticas uma cruz religião irrecusável
uma tontura um sonho por todo o tempo que dure vai ser sempre pouco e um
pouco imaturo violento
como a flor que desponta para engolir o insecto carnívora
como um fátuo zumbido as pequenas asas sumidas a tremer
num gemido o regozijo de ver nos mares os barcos a vapor desirmanados
contra o céu os fumos reflectidos no ondear cristalino das ondas
as redes de pesca as pequenas barbatanas da cartilaginosa matrinchã exótica
como a minha pele acondicionada na tua nos nossos olhos rasgados o mistério
da nossa origem eu não sei de onde vem a tua mão que me agarra
nem sei como posso ter força para te prender agrilhoar-te aos meus pés de repente
e nunca nunca poderes partir.
Sou francamente insuportável
penso demais
sinto demais
peso demais mas
das minhas mãos podias desenhar corações nos cadernos com os cantos dobrados das folhas
podias ouvir-me a calcá-las no outonal desenrolar da felicidade
os nossos beijos com o lamento o infortúnio
dos rouxinóis sem ninho sobre os ramos despidos
das minhas mãos podias despir-te
tirar fragilmente de mim tudo o que quisesses
mesmo que não tivesse nada para te dar senão
a esbatida melancolia dos meus ciúmes e o meu desejo como se
nunca nunca mais pudesse esquecer-te como se
a cada som dos violinos de arcos cordas que vibram sem pavor
fosses sempre tão intensamente chorada
a cada cigarro fumado no ar mediterrânico das madrugadas de Maio um sorriso teu
na raiva de nunca o ter tido pleno e único nas tardes lentas de Agosto
nas manhãs ternas da chuva inclinada a embater nos vidros embaciados da janela
uma cama que pudesse ser só nossa
gostava de dormir abraçada aos teus cheiros com a face encostada
aos teus cabelos negros que me puxassem para dentro dos teus sonhos
e um sorriso teu e abertos os teus braços
pudesse a minha alma caber lá dentro
deves saber a hortelã macerada
deves saber a cânhamo nos pulmões envelhecidos
deves saber a querer dizer que te amo
e não poder
e não poder sequer ver-te por me apetecer tanto beijar-te
languidamente, porque na realidade não te amo
mas sinto-te tanto
como se te amasse
terça-feira, 13 de Março de 2007
as pessoas são colhidas como alfaces
ou, como já desejei tanto
vou comprar um guia de sobrevivência e refugiar-me nos Himalaias
mas para quê? Como seria possível, apesar da minha natureza meditativa, abandonar o bulício da cidade, os peões no passeio aguardando o sinal verde do semáforo, o ruído constante do arranque dos carros, os diletantes cafés e os cigarros, as noites profusas e decadentes, os estados alienados de mim mesma?
Vejo-me obrigada, por motivos de natureza genealógica e geográfica, a andar muitas vezes de comboio, distribuindo-me desigualmente entre duas cidades mesmo sabendo que, no fundo, não sou de nenhuma. Hoje, enquanto conversava com uma amiga minha ela disse que todos os fins de semana lhe queimavam os collants com cigarros. E eu pensei
talvez seja o destino, os comboios em que eu ando também chegam sempre atrasados.
Certo dia, perto de Fátima, o comboio fez uma travagem brusca e parou repentinamente. Já era de noite há umas horas e o tempo estava chuvoso lá fora. Os passageiros entreolharam-se e tentaram espreitar pela janela, mas não se via nada. No banco ao lado do meu viajava um velhote com a esposa, que sorriu para mim. Desviei os olhos dos seus olhos tortos e continuei a escrever e a queixar-me às pessoas com quem falava via msn, impertinentemente, que o comboio tinha parado e nunca mais reiniciava a sua fatídica marcha. Exaspera-me tanto viajar de comboio. Todos os percursos parecem intermináveis, os olhares dissimulados das pessoas umas para as outras cansam-me. Irrita-me a paragem nas sucessivas estações antes que possa chegar ao meu destino, enerva-me as pessoas a enganarem-se na carruagem e nos lugares que lhes são destinados. Chateia-me o bigode esmifrado dos revisores e o ar condicionado que nunca está na temperatura certa.
Foi uma longa espera, perto de Fátima. O comboio permaneceu no mesmo sítio durante uma hora e meia. A minha carruagem estava quase vazia e eu podia ouvir o velhote a dizer à mulher que era maluca, quando a entrada do revisor desviou a sua atenção
o que é que se passa para estarmos há tanto tempo parados?
e o revisor respondeu
o comboio colheu uma pessoa
e morreu
As pessoas são colhidas como alfaces. Mas as alfaces não deixam as pessoas à espera.
Puta que a pariu. Puta que pariu as pessoas. Puta que pariu os comboios.
segunda-feira, 12 de Março de 2007
a génese da minhoca
E eu, embora não tenha por hábito falar de coisas que não sei, vou responder. Certo dia, estava eu na sala de aula e, a propósito da natureza humana, iniciou-se uma acesa discussão sobre Deus. As duas filas da frente, quase em uníssono, gritaram
— Deus condiciona toda a nossa vida!
e eu pensei que Deus deve ser mesmo mau, porque uma era preta e tinha o nariz mais largo do que a boca e a boca mais grossa do que os dedos, outra tinha os dentes encavalitados e todas as refeições da semana compartimentalizadas no aparelho ortodentário, mas quando ouvi esta afirmação
— Se aparecesse um pedófilo no meu consultório dava-lhe um par de estalos!
percebi que estas pessoas eram edificadas à imagem e semelhança do seu próprio deus.
Não levou muito tempo, porém, até que novos intervenientes surgissem, alegando a maior ou menor participação divina na essência do ser humano, mas quando uma menina muito bonita, de Cascais, disse que
— O homem é igual à minhoca!
eu vi-me obrigada a reduzir a pó todas as minhas convicções espirituais e estou solenemente convencida que sou uma minhoca.
Todavia, este sério e inteligente debate não foi o único motivo que me levou a reconsiderar os axiomas já estabelecidos acerca de mim mesma. Confesso até que duvidei, por breves momentos, que o homem fosse igual à minhoca.
(Céus, como pude eu duvidar dessa afirmação?)
Mas reflecti muito sobre mim e as minhocas, e chguei à conclusão que temos muitas coisas em comum e, como tal, eu só posso ser uma minhoca. Não me refiro apenas à minha mentalidade tacanha, obscura e underground e ao facto de ser uma palerma; tenho também em atenção o meu presente metafórico — estou enterrada — e o meu futuro literal — vou para debaixo da terra. O facto de as minhocas terem um sistema digestivo completo também é um dado relevante, porque eu adoro comer e não sei como seria se, enfim, não tivesse mecanismos organismicamente capazes de digerir tudo aquilo que como. A epiderme das minhocas é coberta por uma fina cutícula de quinina e produz bastante muco, que as torna viscosas e facilita o arrastamento. As minhocas são vermes, arrastam-se; eu também me arrasto. O muco tem ainda outra função, que é a de proteger a pele quando em contacto com substâncias tóxicas e garante a humidade indispensável para trocas de gases respiratórios no corpo. Ora, eu também tenho as minhas defesas contra agentes nocivos e tenho o meu próprio muco que, embora não sirva para trocar gases, serve para outras coisas.
A título de curiosidade: as minhocas, na cópula, produzem bastante muco.
Se calhar somos todos minhocas.










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